A Educação é o único caminho

Nas Antípodas de Portugal

Comunidade da Austrália

Capital: Camberra
Moeda: Dólar Australiano
Língua Oficial: Inglês

Estavam 10ºC, quando saímos do Aeroporto de Melbourne, com as mochilas às costas e com o material que não pudemos deixar de trazer para fazer uma viagem destas.

Foi uma sofrida viagem de avião até Melbourne. Saímos do Porto na segunda-feira depois de almoçar. O Frank Thomas tinha os equipamentos e estava tudo pronto à nossa espera. Só faltavam os capacetes e umas cintas que acabaram por chegar mesmo em cima da hora.

Chegámos na quarta-feira ao nascer do sol, com duas escalas de umas poucas horas que não permitiam sequer dar um passeio pela cidade.

Se já conhecíamos Frankfurt, Singapura podia ter sido bem aproveitada, mas não foi. Descobrimos demasiado tarde que disponibilizam um tour pela cidade em autocarro para quem passa pelo território em trânsito para outros países. É totalmente gratuito e funciona como forma de promoção turística.

Quando chegámos a Melbourne, decidimos alugar um carro para facilitar os nossos movimentos, seja para tratar do desalfandegamento das nossas motas, seja para comprar óleos, gasolina e tudo que é obrigatório tirar das motas para transportar num avião. Foi-nos comunicado que as motas iam para “Quarentine” e iriam à desinfecção. Isto é um excesso de zelo das alfândegas australianas, que não deixam entrar nada nem ninguém neste país sem terem a certeza de que não traz consigo vírus ou qualquer perigo endémico.

Na alugadora conhecemos a Vânia – que é portuguesa – e começámos logo a fazer amizades. Fez-nos um preço especial ao carro e deu-nos o livro do roteiro de Melbourne. Explicou-nos detalhadamente os percursos que tínhamos a fazer e lá fomos.

Como aqui se conduz pela esquerda – e nós não estamos propriamente frescos depois de dois dias de viagem de avião – as coisas complicaram-se logo no primeiro ponto onde devíamos virar, porque temos que pensar tudo ao contrário. A ideia é andar sempre em contra-mão, fazer as rotundas pela esquerda e raciocinar todos os nossos habituais automatismos de condução para mudar a caixa com a mão esquerda e ver pelos retrovisores, ou dar o pisca para virar.

Depois de algumas confusões e diversões com o nosso roteiro, lá conseguimos chegar ao nosso objectivo e estamos no BakPak Hotel a escrever esta crónica, depois dum bom banho e duma refeição rápida. Agora, já noite, vou tentar dormir para recuperar do jet-lag de ter passado para o outro lado do Mundo.

As voltas do jet-lag e a preparação do arranque para Dili

Dormimos muito bem, acordámos fresquinhos, tomámos um banho e, prontos para um dia de actividade em Melbourne, descemos à sala do pequeno almoço. Só aí descobrimos que era meia-noite e meia.

Ficámos então estupefactos com o efeito do jet-lag e a baralhação que os fusos horários produzem no nosso ritmo biológico. Regressámos ao quarto para decidir o que iríamos fazer e acabámos por nos deitarmos de novo, à espera que o dia nascesse.

Enquanto as autoridades da Quarentine fumigam as nossas motas para assegurarem que nem um grão de terra nem um mosquito esmagado entra, contaminando este território australiano, deambulámos a pé por Melbourne, cidade muito grande e espaçosa, arejada e limpa, mas com um elevadíssimo índice de população, graças à intensa indústria predominantemente alimentada a carvão.

Por todo o lado, há casas do séc. XIX em estilo arquitectónico vitoriano. São sempre baixas e com belos trabalhos em ferro forjado a marcar as entradas, as varandas e as janelas exteriores. Só mesmo no centro da cidade se vêem uns blocos de arranha-céus e edifícios modernos de arquitectura arrojada. Toda a cidade é cruzada por uma rede de estradas e auto-estradas muito complexa, com um trânsito muito intenso mas fluído, com os condutores muito respeitadores das regras de trânsito e especialmente peões, com um policiamento discreto – mas certamente muito eficaz – suportado por múltiplas câmaras de vídeo e equipamentos de controlo de velocidade. Há mesmo uma zona de cidade onde, tal como em Londres, se paga para circular de carro.

Chegámos sem querer à SBS Rádio Melbourne, atraídos por um fabuloso edifício, um misto de centro Pompidou, em Paris, com a Casa da Música do Porto, onde fomos muito bem recebidos pelos três portugueses que ali trabalham e que são responsáveis pela produção de toda a programação para as comunidades portuguesas da Austrália. Viemos a saber depois que a empresa construtora é de um português.

A directora da SBS, Gabriela Carrascalão, desdobrou-se em múltiplos contactos para nos ajudar a resolver os nossos problemas e ultrapassar dificuldades que sempre surgem. Desde a Fundação Oriente e o seu responsável Álvaro Antunes, para nos arranjar onde ficar em Dili, até às autoridades timorenses para preparar a nossa chegada a Timor Lorosae. A SBS é a mais importante rádio e televisão do Governo Australiano e difunde em 68 línguas para todo o planeta.

Diários de motocicleta

Melbourne é a nossa primeira paragem antes de partirmos para Díli. Finalmente as nossas motas foram libertadas pelas autoridades Australianas da desinfestação obrigatória. Ficaram com um ar asséptico. Depois de as termos prontas a rolar, dedicámo-nos à saga de procurar uma seguradora australiana que nos fizesse uma apólice para circularmos totalmente descansados. Não havendo convénio entre Portugal e Austrália nesta matéria de seguros, não conseguimos resolver esta dificuldade. Vamos, por isso, ter que viajar sem seguro contra terceiros, que na Austrália não é obrigatório.

Cansados e conformados, fomos para a cama depois de comer um fast-food qualquer. O Porfírio, o atleta de 58 quilos do nosso team – e nosso rookie nestas aventuras – acordou às seis horas e logo foi fazer o seu habitual treino de atletismo, suportando um vento gélido antárctico que aqui sopra permanentemente desde que chegámos.

Estamos de novo na Rádio SBS Melbourne para sermos entrevistados em directo para o programa de uma hora feito em língua portuguesa e dirigido às comunidades portuguesas de toda a Austrália. Os jornalistas metralham-nos com perguntas sobre as ideias e os objectivos da associação Na Rota dos Povos. Falámos-lhes não só das viagens ao Médio Oriente, quando fomos os primeiros portugueses a entrar no Irão de mota após a Revolução Islâmica. De Africa, onde levamos um contentor de medicamentos à AMI a Huila, no sul de Angola, e criámos uma biblioteca com alguns milhares de livros em Maquela do Zombo, no Uíge, norte de Angola. De Macau, viagem realizada 1999, que assinalou a passagem daquele território para a administração da China, e que nesta zona adquire uma maior importância, devido à proximidade. Explicámos os aspectos e as componentes humanitárias e fraternas que estão no cerne das nossas aventuras.

Fomos depois convidados para uma festa em casa duma família australiana. Aqui, cada convidado leva o seu próprio vinho e só deve beber da sua garrafa. No final, leva consigo o que sobrar.

Aprendemos com os nossos erros também algumas regras e hábitos sociais que são a norma local. Quando entrámos, cumprimentámos as senhoras com um beijinho na face, como é normal para nós portugueses. Foi muito chocante para eles, conforme nos avisaram mais tarde e, claro, demasiado tarde. Explicaram-nos que os australianos são muito frios e distantes nas suas relações sociais. O sorriso e simpatia permanentes que encontramos nos contactos de rua, no comércio, por toda a parte, é muito teatral, treinado e artificial.

Aqui é quase proibido tocar na pessoa, muito menos na face quando não se é família, e beijar uma senhora ou tocá-la ainda que levemente pode até ser ofensivo e passível de ser considerado assédio sexual.

Quando nos explicaram estas cambiantes só pensávamos: “Não é possível?!”

Já era tarde para pedir desculpas e só fomos a tempo de rectificar o erro à saída, despedindo-nos com um “Tchau, fiquem bem”.

De Melbourne a Dili, passando pelos incêndios australianos

Partimos de Melbourne com temperaturas negativas e o tempo um pouco chuvoso, a pensar no que nos esperará nos três desertos que vamos atravessar, com temperaturas entre os 15 graus negativos de noite e os 45 graus de dia.

Apesar de tudo ter corrido muito bem, sem qualquer problema ou episódio digno de registo, à noitinha, quando conseguimos meter qualquer coisa no estômago num hotel em Morgan, revivemos o percurso efectuado nesse dia e, pensando no que ainda nos faltava, concluímos ser necessário manter uma cadência de progressão para chegar a Díli de forma a não pôr em risco a concretização da nossa missão de entregar a bandeira da Cidade do Porto, a missiva do presidente da Câmara, as serigrafias do Mestre José Rodrigues, Presidente da Cooperativa Artística Árvore e a t-shirt do Moto Clube do Porto, assinada por muitos sócios.

Seguimos depois por estradas secundárias e, a partir de Burra, entrámos na famosa Stuart Highway, a N1 da Austrália, que foi construída mais ou menos sobre o percurso efectuado pelo primeiro explorador que atravessou o continente de Sul até ao Norte. Uma estrada com enormes rectas, algumas com mais de 80 quilómetros e quase sempre com 30 a 40 quilómetros a ligar duas curvas muito suaves, não tendo uma só curva apertada.

Na rota que nos levava até Darwin fez-nos passar por Alice Springs e Elliot. Já a chegar a Darwin, atravessámos uma imensa zona árida, onde o calor abrasador nos fazia perder energias rapidamente.

Além disso, juntámos mais uma preocupação: o grande número de incêndios. Um deles com uma frente junto à estrada com mais de 50 quilómetros, aparecendo muitos animais em fuga que morriam atropelados, já que eram dificilmente visíveis à distância por causa do fumo intenso que aumentava enormemente a temperatura do ar e dificultava a nossa respiração.

Quando finalmente chegámos a Darwin, entregámos as nossas motas no porto para serem transportadas de navio para Dili. Nós seguimos de avião para a capital timorense.

Uma volta pela ilha de Timor entre perigos e a beleza natural

Republica Democrática de Timor-Leste

Capital: Díli
Moeda: Dólar Americano
Língua Oficial: Tétum e Português

Chegámos a Timor, País para nós Portugueses com um significado profundo, pois ao longo dos anos temos vindo a lutar para que se pudesse concretizar o Sonho do seu Povo: ser possível ser independente e viver em Liberdade!

Daqui, dentro de poucos dias, iríamos iniciar a viagem Díli/Porto, que culminaria a volta ao Mundo, iniciada em 1999, com a aventura Macau/Porto.

Fomos recebidos como irmãos neste País. Ainda sem as motas, demos os primeiros passos para conhecer Díli. Recebidos no Aeroporto por um elemento da Fundação Oriente, fomos transportados para o local onde iríamos residir durante a nossa estadia, a residência dos Professores Portugueses.

No dia seguinte, começámos a estabelecer os contactos para confirmação das recepções com o Presidente Xanana Gusmão e o Primeiro-ministro Mari Alkatiri, e apresentar os nossos cumprimentos ao Embaixador de Portugal em Timor-Leste.

À noite dirigimo-nos para o Hotel Timor, onde podemos entrar em directo no “Portugal no Coração” e também conviver com alguns portugueses que, no âmbito da cooperação, se encontram em Dili. No dia seguinte fomos visitar a “Comunidade Cristo de Betânia”, onde fomos recebidos com Cânticos locais e nos foi oferecido o famosos “Tais”, uma espécie de cachecol que se coloca aos visitantes em sinal de amizade e boas vindas.

Com a Irmã Margarida fomos visitar o espaço onde esta Comunidade pretende construir um centro de Apoio aos jovens carenciados rapazes e raparigas que vivem fora de Díli e que pretendam aí estudar.

Finalmente, a 5 de Agosto, fomos recebidos pelo Presidente Xanana Gusmão. Este grande líder mundial concedeu-nos, com grande simplicidade, uma entrevista de cerca de hora e meia, tendo nós tido a possibilidade de falar com ele, não só dos problemas de Timor, bem como das nossas vidas pessoais.

Entregámos-lhe a missiva do Presidente da Câmara Municipal do Porto, a bandeira desta cidade, bem como a serigrafia do Mestre José Rodrigues, Presidente da Cooperativa “Árvore” e, como não podia de ser, as t-shirts do Moto Clube do Porto, assinadas pelos seus sócios. Na parte não protocolar, referimos a admiração que sentimos pelo Presidente Xanana Gusmão no seu combate pela Liberdade do seu Povo e pelo apoio às causas justas, sendo para nós um exemplo do que é ser Homem.

Na despedida entregou-nos uma prenda e uma mensagem para serem entregues ao Presidente da Câmara Municipal do Porto, e para nós, umas mensagens para que fossem entregues a cada um dos nossos filhos.

O Presidente Xanana Gusmão fez questão de ver e subir para as motas, tendo até referido que quando jovem era um amante deste tipo de transporte, mostrando-nos as marcas no seu braço esquerdo, deixadas por um violento desastre.

Não nos esqueceremos destes momentos vividos!

No dia seguinte, foi a vez de sermos recebidos pelo Primeiro-ministro Mari Alkatiri, que igualmente e com grande simplicidade, nos recebeu no Palácio Governamental. A ele entregamos as mensagens e prendas de que éramos portadores, por parte do Presidente da Câmara Municipal do Porto, do Mestre José Rodrigues e dos sócios do Moto Clube do Porto.

Referimos que desde muito cedo ouvimos falar no nome dele como sendo líder e o fundador da Fretilin e que reconhecemos a acção que vem desenvolvendo para melhorar as condições de vida do seu Povo. O Primeiro-ministro fez questão de , não só se sentar nas nossas motos, mas de referir que quando jovem tinha tido uma experiência inesquecível, não sabendo se tinha sido ele ou o cavalo que se tinham “atropelado”.

Mari Alkatiri fez questão em dar a partida à nossa aventura com a bandeira de Timor.

Terminada a cerimónia com o primeiro-ministro Mari Alkatiri, partimos para conhecer Timor-Leste, com destino a Baucau. Connosco foi o professor Carlos Reis, que dá aulas em Nanatuno e, pelo caminho, verificámos o quanto é perigoso circular fora de Díli, pois as estradas são bastante estreitas, com enormes lombas e buracos.

Além disso, os timorenses circulam sempre no meio da via.

Chegados a Manatuno, deixámos o professor Carlos Reis na sua pequena casa em frente ao mar e prosseguimos para Baucau. O perigo na estrada continuava de tal maneira que, por duas vezes, fomos atirados para a berma.

Já em Baucau, segunda cidade de Timor, encontrámos a Tânia Correia, assessora do presidente Xanana Gusmão, com quem já tínhamos estado em Dili, e o João Ferro, designer industrial a trabalhar para a Diocese de Baucau, que nos cederam a casa deles para podermos pernoitar. Aí, estivemos com o Vítor Martins, que está a dar formação de artes gráficas aos timorenses.

Depois de termos visitado o mercado, local onde ainda existe o brasão de Portugal, fomos dar uma volta pela cidade, sabendo que a partir da meia-noite deixaria de haver electricidade. Partimos no dia seguinte muito cedo para continuarmos a nossa viagem e, à passagem por Lautem, vimos muitas pessoas junto à estrada, que faziam sinais apontando para o rio. Parámos as motos e vimos um enorme crocodilo de água salgada. Pelo que nos disseram, é normal aparecerem de vez em quando nas praias ao longo da costa de Timor.

Passámos depois por Com, onde aproveitámos para dar um mergulho nas águas quentes do Pacífico virado para a Indonésia e, tendo sempre em mente os tubarões e agora os crocodilos, prosseguimos para Fuilore, Tutuala e Los Palos, onde vimos as típicas casas, uma delas reconstruída pela Fundação Calouste Gulbenkian, mas que infelizmente se encontra ao abandono. Seguimos para Lori, onde demos um mergulho no Pacífico, virado para a Austrália, depois, Same, Maubisse, Aileu, chegando a Díli já de noite.

DIA CALAI quer dizer em Tétum “Como estão”

Neste último dia em Timor-Leste, antes de ir para a Austrália e após termos visitado a parte ocidental da ilha, junto à Indonésia, constatamos que a situação é igual à que o João Pedro ontem referiu.
As últimas reflexões sobre este país além das referidas anteriormente, são de que o Português face aos Gigantes Austrália com o Inglês e a Indonésia com o Basa, é e tem de ser um elemento agregador da consciência colectiva deste Povo.

As suas características culturais e étnicas distinguem-no do resto da ilha, e tal facto pode ser por nós constatado ao termos participado numa reunião com os diferentes Reinos de Timor, que depois desfilaram pelas ruas de Díli em favor da sua cultura e identidade.

Estrategicamente o Governo alterou a sua política de ensino do Português, privilegiando a formação de formadores timorenses, em detrimento do trabalho de professores vindos de Portugal, que não são conhecedores não só das especificidades deste Povo, como não sabem Tétum para explicar o que ensinam. No entanto, não têm deixado de fazer um trabalho meritório e reconhecido pelas autoridades locais.

Foi-nos oferecido um jantar pelo Adido de Imprensa da Embaixada de Portugal e nele tivemos oportunidade de conversar com o Embaixador Português e Embaixador do Brasil.

A nossa despedida em Tétum é Obrigado Barracks que quer dizer “Muito Obrigado”.

Austrália

Nas reportagens anteriores, falámos de Timor-Leste, onde estivemos vários dias, tendo sido recebidos pelo Presidente Xanana Gusmão e pelo primeiro-ministro Mari Alkatiri.

Percorremos a ilha e sentimos a forma calorosa como nos tratavam quando se apercebiam que éramos portugueses e a forma entusiasta com que nos saudavam quando, ao passarmos, reconheciam a bandeira portuguesa colocada nas nossas motas.

A viagem “Dili-Porto 2005 Dois Povos um Sonho: Liberdade” continua agora na Austrália.

Esta imensa ilha-continente, – o sexto maior pais do mundo com uma área igual a Europa a 25, parte da Rússia e Turquia – tem uma reduzida população (18 milhões de pessoas) face a essa dimensão.

A Austrália tem seis estados e um território autónomo. A língua oficial é o inglês, sendo a sua capital Camberra a única grande cidade que não fica junto à costa.

Voltando um pouco ao passado, sabe-se que os seus primeiros habitantes chegaram há 100 mil anos, sendo os seus descendentes os aborígenes, que representam apenas 1% da população.

Estes verdadeiros donos da Austrália não eram considerados, até meados dos anos 60, cidadãos australianos, tendo-lhes sido negado o direito de voto, benefícios sociais e até a inscrição no recenseamento da população.

A partir dos anos 70, os aborígenes, apoiados por diversos movimentos, passaram a exigir direitos civis e territoriais, tendo sido, em 1993, assinado o acto do título nativo, no qual foi acordado quais as compensações que lhes seriam devidas pela perda dos seus territórios

Alguns navegadores (entre eles, portugueses) chegaram à Austrália em 1542. No entanto, a colonização iniciou-se em 1788, dominada maioritariamente por imigrantes britânicos e irlandeses.

Retratos de Darwin

Neste primeiro dia na Austrália, vale a pena olhar para a cidade de Darwin onde nos encontramos, considerada uma cidade “fronteira” com a Ásia e a capital do território do Norte, autónomo desde 1878. Este local foi descoberto em 1839, aquando da famosa expedição do Beagle, em que participou Charles Darwin. Por isso, passou a ter o seu nome desde 1911.

É das poucas grandes cidades australianas que sofreu directamente com a II Guerra Mundial, tendo sido bombardeada em 1942 e 1943 pela aviação japonesa.

Em 1974, foi quase completamente destruída pelo ciclone Tracy, pouco antes do Natal. O ciclone tinha uma largura de cerca de 40 quilómetros e chegou a registar ventos com velocidades de 300 km/hora.

Hoje completamente reconstruída e com cerca de 100 mil habitantes, é uma cidade agitada, feérica e considerada a mais libertina da Austrália. O seu clima tropical e a mistura das mais diferentes raças do mundo criam um ambiente caloroso.

Entre o rio Katherine e as grutas Cutta Cutta

Neste planeta ainda azul, a Austrália é a mais árida, mais plana e mais antiga terra do Mundo.

Esta enorme massa de sete milhões de quilómetros quadrados criou, com um mar interior seco, um deserto de areias de diferentes cores, dos cinzas aos vermelhos.

Durante milhões de anos, as mutações não se fizeram sentir a este imenso espaço envelhecido. É este o sentido da nossa viagem a caminho de Alice Springs. Seguimos para Katherine, onde durante duas horas navegámos ao longo do rio, para apreciar as famosas Katherine Gorges situadas no Parque Natural de Nitmiluk.

A imponência das falésias quase nos esmaga quando percorremos, num pequeno barco, este rio. O guia refere a existência de crocodilos (o que duvidamos) e diz que nestas gargantas foram filmadas algumas cenas do filme “A guerra da estrelas”. Em 1974, nas grandes cheias do rio Katherine, as águas subiram 2,90 metros. Conta-se que os crocodilos invadiram a cidade e dirigiram-se para os talhos para se banquetear com carne fresca. Seguidamente, fomos visitar as Cutta Cutta Caves, que são uma série de cavernas unidas por passagens muito estreitas. A zona que nós visitámos tem cerca de 700 metros e está a cerca de 15 metros abaixo do solo. A formação destas cavernas ocorreu há cerca de 500 milhões de anos, tendo sido descobertas por volta do ano de 1900. Depois de pernoitarmos em Elliot, continuámos a nossa viagem, tendo saído da Stuart Highway e percorrido uma pista de cerca de 40 quilómetros até Kunjarra. Kunjarra é um vasto grupo granítico avermelhado. Um local sagrado para o povo Warramungu e o local de dança das mulheres no sonho de Munga Munga.

Prosseguimos para outro local sagrado dos aborígenes, os famosos Devils Marbles, uma das mais significativas e mais fotografadas formações naturais do território do Norte. De acordo com o sonho aborígenes, estas sagradas e místicas rochas são os ovos da serpente do arco-íris. Existem centenas de formas diversas, algumas com mais de seis metros de diâmetro. Umas balançam precariamente em cima de outras. As rochas, que são particularmente belas ao amanhecer e ao pôr-do-sol, obtiveram estas formas devido a milhares de anos de erosão. Finalmente, chegámos ao fim do dia a Alice Springs. Fizemos cerca de 1.700 quilómetros desde que saímos de Darwin. Começámos a ficar com saudades dos 35 graus que tínhamos em Darwin. Aqui estão cinco graus!

A Nordeste de Alice Springs passamos pelo deserto do Tanami, que é o reino das termiteiras, estas construções estendem-se até ao infinito, tem formas variadas conforme a espécie que a constrói, algumas termiteiras chegam a ter alturas superiores a dois metros. Seguimos com o objectivo de chegarmos rapidamente a Uluru.

Parque Nacional desde 1977, chamado Uluru-Kata Jtuta.

Seguimos com o objectivo de chegarmos rapidamente a Uluru.

Uluru é constituido por monólitos que atingem a extensão de 9 km e altura de 340 metros.

Kata Jtuta com 36 cúpulas rochosas numa área de 36 km2, entre elas o monte Olga com 546 metros de altura.

Uluru é lugar sagrado para os Anangu Maru (aborígenes Australianos).

Uma das suas lendas conta que no tempo da juventude da terra, homens-serpentes, serenos e tranquilos viviam felizes no grande corpo do monólito. Um dia foram atacados por outro povo serpente, esse outro mau, que os matou a todos excepto um. Este não pode suportar a sua dor e manteve apenas a sua forma reptilinea, trocando o rochedo mágico pelas dunas do deserto.

Todas as criaturas da “Era dos Sonhos” como desta lenda agora referida são para eles realidade e reflectem nas formações rochosas, rios, ribeiros, montes e nascentes neles continuando a viver. Hoje em dia não compreendem porque que é que as multidões de minga (formigas – nome dado aos turistas) vem aqui sistematicamente atraídos pelo jogo de cores do rochedo vermelho, não dando importância ao significado que este local tem para os Anangu Maru, tentando até, trepar o rochedo, sem o mínimo de respeito por um local sagrado. Todos nós devíamos saber que a Tjucurpa (lei tradicional) que fala sobre a criação do mundo, a existência, dando regras a vida quotidiana, ao comportamento entre elas e cada uma com a terra, impede que suba ao topo de Uluru.

Quando os primeiros europeus chegaram à Austrália, os aborígenes começaram por achar que eles eram mortos de regresso a terra, depois consideram-nos primitivos, pois os brancos ignoravam tudo da espiritualidade e da entreajuda, do perigo da propriedade privada, conceito que a sua moral combatia desde tenra idade. Para eles era inconcebível que os Piranyta (europeus) lhes roubassem as terras. Deixar o seu país para um território estrangeiro era desobedecer aos seres criadores, fugir a protecção dos locais sagrados para se confrontar com as forças do mal de locais desconhecidos, para os aborígenes, um povo de caçadores-recolectores, o homem pertencia a terra, a sua TERRA-MÃE, e não o inverso.

Do outro lado, os europeus face ao aparente despojamento dos aborígenes, aos utensílios e armas que tinham consideram-nos uma espécie de sub humanidade. Seres equiparados aos cangurus que não podiam ter direito às terras. Terríveis massacres se concretizaram levando a um verdadeiro genocídio, havendo um prémio por cada cabeça de homem negro caçado.

Actualmente os Australianos brancos montaram uma máquina turística à volta da cultura aborígene, que certamente lhes proporciona uma enorme fonte de rendimento, será que tal riqueza é também distribuída aos Anangu Maru.

A sensação que temos ao atravessar o Território do Norte, é que ao terem perdido os seus espaços, o seu modo de vida e a sua ligação à terra, os Anangu Maru deambulam em vários locais sem aparente ocupação, desenraizados do seu próprio espaço, parece-nos que este povo tende para a extinção, pois basta recordar a sua população de 1 milhão de pessoas, a chegada dos europeus tem agora pouca mais de 200 mil.

Travessia da Austrália pelos três mil quilómetros da Stuart Highway

A nossa aventura entre terras Australianas tem-nos levado a percorrer a Stuart Highway, estrada que liga Adelaide a Darwin, via Alice Springs, através de três mil quilómetros de terras quase inteiramente desertas. O nome desta estrada pretende homenagear a Odisseia de John Stuart que, a 1 de Maio de 1860, iniciou e travessia do continente australiano de Sul para Norte. Nesta estrada, podemos encontrar de tudo: desde camiões e seus atrelados com mais de 50 metros de comprimento, os “road trains” (comboios da estrada), equipados com pára-choques anti-canguru e anti-gado, até viajantes que, aproveitando a quase inexistência de elevações, viagam em patins em linha ou em estranhos veículos de locomoção.
Descrevendo esta estrada a partir de Darwin, capital do Território do Norte, passámos por Pine Creek, de onde pudemos seguir para o Parque Nacional de Kakadu. Passámos também por Daily Waters, que tem o pub mais antigo do território (data de 1893). Depois, seguimos para Renner Springs, fronteira climática e geológica entre o deserto vermelho e o Top End, as planícies do Norte cobertas de savana. Passámos por um importante cruzamento, Tree Ways, seguimos para Tennant Creek, famosa pelas suas minas de autêntico oásis no deserto. De partida de novo, em Erfunda, pudemos seguir o desvio para o Parque Nacional de Uluru-Kajta Jtuta e, finalmente, Kulguera.

Deixámos aqui o Território do Norte para entrar no estado da Austrália do Sul. As medidas sanitárias (a “Quarentine” que já relatámos aquando da nossa entrada na Austrália) também se verificam na passagem de Estado para Estado, embora não de forma tão exagerada. Cober Pady, a capital australiana das Opalas, é uma cidade literalmente subterrânea. Em Glendambo, a estrada atravessa uma região de lagos salgados que normalmente estão secos. Finalmente, Port Augusta (a 310 quilómetros de Adelaide) onde a “The Track” (como é conhecida a Stuart Highway) começa.

Em resumo, passámos por três sítios considerados património mundial pela UNESCO: Kakadu, Uluru-Katja e a região dos Lagos Willandra (antigos lagos fósseis). Atravessámos o deserto do Tanami e o deserto de Simpson. Passámos pelo Trópico de Câncer. Iniciámos a nossa aventura nesta ilha-continente em Darwin, banhada pelo mar de Arafura com temperaturas de 35 graus, para acabar em Melbourne, banhada pelo mar da Tasmânia com apenas seis graus.

Nova Zelândia, país das pessoas normais (maoris)

Nova-Zelândia

Capital: Wellington
Moeda: Dólar da Nova-Zelândia
Língua Oficial: Inglês, Maori e Língua dos Sinais Neozelandesa

Toi tu te whenua (deixa a terra em paz)

O deus Maui, que vivia em Hawaiki, decidiu um dia partir para a pesca com o irmão.

Entrou pelo mar dentro e, a dias e noites de Hawaiki, lançou a âncora (ilha de Stuart).

Instalado na sua piroga (ilha do Sul), apanhou um peixe gigantesco (ilha do Norte), graças a um anzol mágico talhado no maxilar da sua avó. Assim foi criado Aotearoa, o país da longa nuvem branca.

Aqui, ao que os europeus dão o nome de Nova Zelândia, chegaram há mil anos os apolinésios que se chamaram a si próprios Maoris (que quer dizer pessoas normais), constituindo uma sociedade complexa, guerreira, sustentada em laços familiares muitos fortes. Também aqui, a colonização feita pelos Pakehas (branco de origem europeia) quase arrasou a história deste povo. Mas pela sua luta, em 1995, a rainha Isabel foi abrigada a assinar uma lei parlamentar neozelandesa que devolvia terras aos Maoris e atribuia-lhes uma compensação monetária, pois o tratado de Waitangi, assinado em 1840, tinha sido um embuste para eles.

No Pacífico Sul, os neozelandeses são chamados de Kiwis, nome de uma estranha ave, incapaz de voar, que é símbolo deste país.

Aqui nesta terra de relevos jovens sempre sujeita à actividade vulcânica, situada na cintura de fogo do Pacífico e, como alguém já referiu, “arca de Noé vegetal e geológica”, parece que estas ilhas capturaram nas suas redes, entre o Pacífico e o Antárctico, os reflexos de um outro planeta. Vulcões adormecidos ou em actividade, geisers, fiordes, glaciares, vastas florestas e pradarias imensas. Descobrimos um dos mais belos locais que alguma vez conhecemos.

A Nova Zelândia conta com 13 parques nacionais e 25 reservas e parques marinhos que cobrem 12% da sua superficie. Entrámos por Auckland, cidade com um terço da população do país (cerca de 1,3 milhões de habitantes) e capital financeira. A capital política é Wellington, com aproximadamente 200 mil habitantes. A torre de Auckland, com 328 metros, detém o título da mais alta estrutura do hemisfério Sul. A nossa experiência de subir ao cimo para tirar fotografias foi de ficar com o coração nas mãos. São 45 segundos de subida, para descobrir uma vista espectacular.

Este país geneticamente antinuclear (basta lembrar as manifestações contra experiências francesas no atol de Mururoa), onde após uma luta obstinada as mulheres foram as primeiras do mundo, em 1893, a obter o direito ao voto, situa-se nos antípodas de Portugal. Curiosamente, a 25 de Abril, celebra-se aqui uma festa de afirmação de identidade nacional – ANZAC Day, que comemora a participação da Nova Zelândia nas duas guerras mundiais e na luta pela liberdade dos povos.

Destas terras que tremem despedimo-nos por hoje.

“Ka Kite”, que quer dizer até à próxima.

Fim da 1ª etapa

Percorremos ao todo doze mil e trezentos quilómetros entre o promissor Timor-Leste, a vasta Austrália e a surpreendente Nova Zelândia na segurança das nossas motas que se portaram irrepreensivelmente. Terminamos a primeira etapa desta viagem, brevemente iniciaremos a segunda etapa que nos levará a percorrer a América Latina, passando pelo Peru, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil.

 

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