A Educação é o único caminho

Para muitos motociclistas, África apresenta-se como o destino eleito para a perfeita aventura. A combinação de deserto, selva, instabilidade política e infra-estruturas em colapso, bem como a diversidade e vitalidade das suas gentes, faz com que uma visita a este continente seja por todos os motivos, inesquecível. Esta vitalidade, quando confrontada ao longo dos dias, com países dos mais pobres, fará qualquer um reflectir, sobre o valor da sua riqueza. Para conseguir atravessar as pistas do Sahara, as estradas lamacentas da Gâmbia ou o território de Casamansa com a sua guerrilha activa, experimenta-se constantemente um balanço entre euforia e desespero.

Lendo os relatos de portugueses aventureiros de quarenta anos atrás, dá-nos a sensação da idade áurea das viagens africanas, onde viajantes eram saudados, pelos guardas fronteiriços através do Saharra francês, ou pelas colónias britânicas e portuguesas espalhadas pela costa. A instabilidade política dos dias de hoje, obriga o viajante a escolher a sua rota dia a dia face aos perigos que depressa emergem mas que tardam a desaparecer.

Facilmente acessível, o norte de África proporciona apreciar a África muçulmana, bastante distinta à medida que descemos para Sul em direcção ao Sahara. Com as rotas trans-saharianas, passando pela Argélia, sendo evitadas a partir da década de 90, o trafego converge agora para a costa Atlântica por Marrocos e Mauritânia.

A Costa do Mosquito

Tirando proveito da nova situação fronteiriça que permite a travessia e regresso pela fronteira a sul de Marrocos com a Mauritânia, descemos em três dias o país, passando pelas bem conhecidas cidades de Casablanca, Marraquexe e Agadir. Depois desta ultima, todo o turismo deixou de ser visto, as vilas começam a estar mais distanciadas e a autonomia necessária passa a ser no mínimo de 250 Km. A partir de TanTan, seguimos numa estrada paralela ao mar, onde nos espantou o número invulgar de embarcações encalhadas na costa, descobrindo então a razão de se tratar da “costa do mosquito” de que já tínhamos ouvido falar. A vegetação escasseia e “línguas” de areia começam a invadir a estrada de rectas sem fim em direcção a Dackla, ultimo reduto civilizado do território Marroquino onde tínhamos que tratar das formalidades antes de prosseguir para Sul.

Ao fim de 20 paragens em controlos policiais (alguns separados a apenas 300 metros do anterior) e muita paciência, pernoitamos em Dackla onde com espanto conhecemos um português, José Alves, comerciante de peixe que já vivia à 4 meses nesta vila. No dia seguinte, tratamos da troca dos pneus das nossas montadas (por outros de piso mais adequado à areia e lama), e da inscrição no comboio militar.

Comboio Militar

Atravessar os últimos 350Km do território em direcção a sul, só é possível às terças e quintas-feiras de cada semana, integrando um comboio militar composto por alguns elementos do exército Marroquino. Apesar de um aparente período de paz, vivido entre o governo e a frente Polísário ( que à 40 anos reivindica o Sahara Ocidental abandonado pelos espanhóis na época de Franco) enquanto se espera um referendo à autonomia do território, o terreno continua minado por todos os últimos anos de guerrilha e sair da estrada por qualquer motivo, está fora de questão.

Enquanto o grupo se reunia às portas da vila, íamos observando o tipo de “fauna” existente. Havia de tudo. Desde os Mauritanios que se abastecem de mantimentos nestes seus vizinhos, a viajantes sem transporte que percorriam o mundo a pé, a comerciantes de automóveis com o Senegal como último destino, a pessoas que fugiam de algo ou com negócios menos claros que faziam a travessia do Sahara, o seu modo de vida. De todos, destacou-se um português (sim mais um), imigrante na Dinamarca, que tinha acabado de ser expulso de casa com problemas matrimoniais e rumava a Dakar em busca de emprego!!!

Depois de se iniciar o percurso, depressa nos apercebemos que dos soldados nem vê-los e que tudo se desenrolava com base no “cada um por si”. Com os jerrycans atestados, fizemos o percurso monótono até ao cair do sol, acabando com um interessante despique a fim de ver quem chegava em primeiro lugar ao local de pernoita, com o objectivo de ficar com o melhor lugar. Infelizmente de nada valeu o “sprint” e algumas ópticas partidas com as pedras projectadas, pois, inexplicavelmente os lugares do casebre já estavam ocupados por viajantes mais afortunados. Curioso foi constatar a localização do acampamento no meio do nada e completamente desprotegido, enquanto os militares ficaram dum velho forte da época espanhola, a uns bons 300 metros do nosso local.

A “fronteira”

No manhã seguinte, depois de uma noite animada pela conversa entre invulgares viajantes e uma febre que persistiu no Vitor, fomos encaminhados para os últimos metros em terra de ninguém. Ladeados por avisos de minas e algumas carcaças de automóveis mais incautos deparamo-nos com duas pick-ups e 4 soldados, que debaixo do já sol abrasador, montaram um posto fronteiriço. Mais de duas horas de lentas formalidades e algumas estranhas “taxas”, tínhamos 50Km até Nouadhibou.

Estes “poucos” Kms pareciam uma eternidade com uma mistura de pedra e areia mole que permitiu quedas e atascanços frequentes. Mas, a solidariedade do Deserto, cedo se destacou e todos no grupo ajudavam quem em dificuldades se encontrava. Depois desta difícil pista, Nouadhibou apresenta-se encostada numa península e totalmente isolada do resto do país. Serviu essencialmente para tratar das formalidades e descansar um pouco antes de avançarmos no dia seguinte para a travessia do Saahara.

Apesar do nosso GPS já ter a rota prédefenida (maravilhas da Internet) fomos aconselhados a contratar um guia local, pois as coordenadas que tínhamos de nada valiam com as constantes tempestades de vento que provocavam alterações frequentes na paisagem. Se hoje é permitido transitar numa pista, amanhã será já impossível de a atravessar. Esses mesmos ventos, fizeram-nos pernoitar no meio do deserto, numa das poucas e raras dunas com uma àrvore, facto possível apenas pela proximidade do mar. A noite, tranquila e límpida, apenas estragada pela areia fina que teimava em se entranhar pelas nossas roupas e corpos.

Rolar pela manhã bem cedo pela imensidão, perdido nos horizontes infinitos, é a melhor maneira de começar o dia. Depois da travessia de 3 grandes dunas, resta-nos perto de 200Km pela praia até Nouchott, esperando pela maré vaza, e rezando para não haver nenhum precalço naquele trajecto sem fuga possível (casos há, onde devido a avaria, os veículos perdem-se com a maré alta). Com a sabedoria do nosso guia, escapamos por pouco aos locais hostis que nos esperavam na única saída possível da praia, perto do “mercado dos ladrões”, assim apelidado aquele local de comércio de peixe.

A capital Nouttchott deu-nos a conhecer a fraca hospitalidade das suas gentes, o que faz qualquer forasteiro sentir uma imensa vontade de atravessar este país o mais rápido possível, apesar de conhecermos relatos de outros viajantes, que garantem a beleza do interior do país, bem mais tranquilo e hospitaleiro. Sempre acompanhados com os nossos novos amigos franceses, mais experientes nestas paragens, rumamos para o Senegal, fugindo à complicada fronteira em Rosso e entrando em Diama onde o trânsito era escasso. A travessia do Parque Natural de aves de Djoudi, vale bem o desvio desta nova paisagem bem mais verde e húmida.

Senegal – entrada na África verde

Depois de um valente susto, ao passarmos de noite por uma coluna de centenas de militares em treino na estrada, acabamos por pernoitar em St. Louis exaustos e famintos. Ficamos encantados com a sua arquitectura colonial francesa, ambiente relaxante e belas praias. Esta vila, uma das mais agradáveis do Senegal, já foi um ponto estratégico de comércio entre este continente e a Europa, até à atribuição da capital do país, a Dakar, por volta de 1958.

Depois de um repousante serão, partimos de manhã cedo para a capital, a pouco mais de 120 Km de distância, pela estrada mais movimentada do país. Chegados a mais uma metrópole confusa, barulhenta e poluída com a azáfama dos locais, viajando nos sobrelotados autocarros. O principal ponto de interesse, foi a visita à ilha dos escravos, assim conhecida por ter sido durante séculos, usada como mercado negreiro. Do século XVIII ao Sec. XIX, este entreposto comercial, era constituído por numerosas casas, de diferentes estilos coloniais.

Depois de um merecido dia de descanso, a ansiedade fez-nos avançar para sul, em direcção a Kaolack e mais tarde rumo a Banjul na Gâmbia. A tranquilidade e organização a que já nos estávamos a habituar no Senegal, esvaneceu-se logo à entrada desta ex-colónia britânica. O posto fronteiriço fervilhava de movimentação de pessoas e bens, e entre a disputada troca de divisa e preenchimento apressado dos formulários habituais, conseguimos mesmo no limite, entrar no ferry pré histórico que atravessa o rio e faz a ligação com a capital. De Banjul, rumamos para o interior, seguindo o rio, por algo parecido com estradas, optando frequentemente por rolarmos na berma macia de terra batida. A vegetação verde e abundante seduzia-nos a parar frequentemente e apreciar aquele cenário. A época das chuvas, para além de tornar algumas estradas em autênticos lamaçais, tinha a particularidade de nos atingir com grande intensidade. Logo a seguir aparecia o sol, fazendo secar a roupa no corpo. Dada a pequena dimensão do país, em dois dias já estávamos de volta ao Senegal (a Gâmbia está “encravada” deste país) e só pensávamos na travessia da parte sul onde ainda subsistem grupos guerrilheiros.

Casamansa

A parte mais preocupante da viagem, era sem dúvida a travessia do território Senegalês, que ainda vive um período de instabilidade, desde algumas décadas. Grupos de guerrilha lutam pela autonomia da região, usando a força das armas para prepararem emboscadas e sabotagens. Estas histórias, foram deixando de o ser à medida que falávamos com os locais, que nos consideravam imprudentes e até tolos por atravessarmos a região. Medindo os prós e contras, optamos por uma ligação mais longa, mas numa estrada rápida e com movimento. E assim, bem cedo, pela manhã chuvosa, arrancamos em direcção à localidade fronteiriça de Ziguinchor com um ritmo apressado, apenas interrompido pelos múltiplos controlos militares existentes na estrada. Sempre tratados cordialmente pelas autoridades, fizemos os 150 quilómetros em duas horas sem problemas de maior. Um reforçado pequeno almoço num café virado para o rio Casamansa e nem queríamos acreditar que já estávamos à porta do nosso destino final – Guiné Bissau

Lar doce lar

Nessa mesma tarde de domingo, seguindo as direcções confusas dos locais rumamos ao posto fronteiriço à entrada de S. Domingos, emocionados e ansiosos do que haveriamos de encontrar. No pacato posto fronteiriço mal paramos, fomos cumprimentados pelos locais, rádios, portáteis colados ao ouvido, ouvindo com atenção o jogo Benfica-Maritimo. Nem dava para acreditar: após duas semanas e meia, voltávamos a ouvir a nossa língua e sentimo-nos logo com se em casa estivessemos. A conversa, entusiasmada, recaiu no futebol onde fomos suplantados em conhecimento da matéria pelos locais, fiéis admiradores do desporto rei. O estilo colonial português em S. Domingos, ainda intacto desde hà 30 anos fez daqueles horas, momentos inesquecíveis.

Tão longe e tão perto. Com as nossas motas, fizemos lentamente os últimos Km até Bissau, absorvendo o mais possível todo aquele cenário. Nas duas travessias de ferry pelo rio Cacheú e Mansôa ficamos a conhecer jovens portugueses, que ali estavam em trabalho voluntário no sector da educação e nos indicaram sítio ideal para pernoitar em Bissau: a pensão da D. Berta. Foi o sítio mais acolhedor por onde passámos, gerido por uma senhora de origem cabo verdiana que nos tratou como se pertencêssemos à família. Assim, já com alguns amigos feitos pelo caminho, a entrada em Bissau já ao fim da tarde, deixou transparecer uma capital ferida pelos últimos anos de guerra, visível nos tanques abandonados que ladeiam a estrada que liga o aeroporto ao centro.

O Interior

Não sobrou muito tempo mas aproveitamos o terceiro dia em Bissau, para explorar o interior, deslocando-nos até Bafatá, localidade de origem de Amílcar Cabral, um dos fundadores do país. Recebidos amavelmente pelo governador local, deixamos uma lembrança alusiva à geminação que esta cidade tem com o Porto, divulgando assim um pouco da nossa cultura.

Nessa tarde fomos também recebidos por vários portugueses, alguns deles residentes à mais de 30 anos nesta região. Relataram-nos a sua difícil forma de sobrevivência durante os anos de instabilidade vividas pelo país. Acima de tudo, são pessoas apaixonadas por África, que abdicam de muito para permanecer ali, mas consideram-se felizes pela escolha feita. Dizem eles que Africa é quase um vício: depois de se experimentar é difícil sair dela.

 

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