A Educação é o único caminho

Todas as grandes aventuras começam por um sonho… este sonho tornou-se realidade na maior viagem feita de Oriente a Ocidente em moto.

Macau – última fronteira do Império

Foi com alguma saudade dos amigos que partimos nas BMW R 1100GS, em busca de aventura e conhecimento dos povos, atravessando 13 países (China, Tibete, Nepal, Índia, Paquistão, Irão, Iraque, Jordânia, Egipto, Líbia, Tunísia, França, Espanha), num total de 27.509 quilómetros.

Do Oriente ao Ocidente foram 75 dias de viagem pautados por alegrias, algumas tristezas, sacrifícios e sorte.

Macau

Moeda: Escudo Macaense

Língua Oficial: Português

Passámos 4 dias em Macau, com visita “obrigatória” a alguns locais históricos como o Casino Lisboa, a Gruta de Camões, as Ruínas de S. Paulo, a ilha da Taipa e Cloane e a velha parte chinesa da cidade. No Leal Senado entregámos a mensagem do Presidente da Câmara do Porto, acompanhada de uma garrafa do vinho do Porto para o museu da cidade, tendo sido agraciados com uma medalha comemorativa da geminação das duas cidades.

A Presidente da assembleia legislativa, Dr.ª Anabela Richie, deu a partida do Largo do Leal Senado com destino às Portas do Cerco, onde entrámos na China.

República Popular da China

Capital: Pequim
Moeda: Renminbi (yuan)
Língua Oficial: Chinês Mandarim

Tivemos de tirar a carta de condução chinesa – o exame resumiu-se a fazer um 8, mais um pouco de burocracia e ao fim de 4 horas começávamos a percorrer a China.

Mais para Norte em direcção a Guangzhou (Cantão), constatámos que os sinais de trânsito eram todos em chinês, alguns até bastante originais.

Em Cantão encontrámos numa pastelaria a “portuguese tart” que mais não era do que o famoso pastel de Belém, e ficámos também a saber que Portugal em chinês é Putauya.

Acidente

Rolando durante vários dias debaixo de uma chuva torrencial, rumo a Jiangang, chegámos a uma estrada de montanha que, parcialmente submersa, tornou a queda inevitável quando a moto se precipitou num buraco. Como resultado, a fractura do antebraço esquerdo do Tito e a suspensão da moto danificada.

Estávamos a 4.000 Km de Pequim, a 12 dias de distância, e só aí poderíamos reparar a moto. Tivemos que elaborar um plano tripartido que consistia no transporte da moto até Pequim de camião, contactar a Baviera em Portugal para enviar as peças via BMW AG na Alemanha para a BMW Pequim.

Resultado da operação: no dia em que chegámos a Pequim a moto e as peças já lá estavam!

Continuámos viagem, o João agora sozinho na sua moto e o Tito no jipe do guia, com destino a Xangai. Pelo caminho tinha-nos saído em sorte 200 Km em pistas, pois as estradas tinham desaparecido devido às enchentes dos rios.

Paragem em Xangai, conhecida como Paris do Oriente ou Rainha do Oriente com o famoso Bund ao longo do rio, o Museu de Xangai com as suas maravilhosas colecções de antigos vasos Ding, bronzes, esculturas, cerâmicas e outras mais.

Na Câmara de Xangai entregámos a mensagem do Presidente da Câmara do Porto ao seu homólogo, bem como uma garrafa do vinho do Porto alusiva à viagem para guardar no Museu da Cidade. Depois das formalidades partimos com destino a Pequim, e fomos bafejados pela sorte, uma auto-estrada com 40 Km mas com uma particularidade de ter passadeiras para peões! Nota: é proibido aos motociclos circularem nas auto-estradas, mas visto termos licenças especiais pudemos passar.

A gasolina é a 45 escudos o litro, com 90 octanas, o que faz com que os motores “grilem”. Nesta sequência de cidades, algumas com milhões de habitantes, por várias vezes o guia se enganou no percurso, mas o nosso sentido de orientação (bastava seguir as placas…) encontrava a saída correcta.

Passámos por Taishan, uma das montanhas sagradas do Taoísmo. Conta a lenda que quem a conseguir subir durará até aos 100 anos – está visto que não chegaremos a essa idade.

Finalmente chegamos a Pequim, cidade com 12 milhões de habitantes, e a boa notícia de que a moto e as peças já cá estavam.

No dia seguinte reparámos a moto e ficou pronta a voltar à estrada com ligeiras modificações – passámos a manete da embraiagem para o lado direito, pois o Tito tinha o antebraço esquerdo partido.

Encontrámos alguns portugueses na Grande Muralha, para alguns o símbolo da China, pois começa no mar da China e termina no Deserto do Gobi, que com cerca de 4.000 Km de extensão é a única obra feita pelo Homem visível a olho nu do espaço.

De volta a Pequim, era imperioso ir à praça Tianamen, local onde houve uma tentativa de democratizar este País-Continente. Do outro lado da avenida temos a Cidade proibida, outrora o palácio e casa de duas dinastias, a Ming e a Qing. A sua construção demorou 14 anos e empregou cerca de 1 milhão de trabalhadores; actualmente é um dos melhores e mais bem conservados edifícios.

O Palácio de Verão e o Templo do Céu são também locais magníficos para visitar!
Nestes dias privámos com uma portuguesa que trabalha em Pequim, que nos guiou e levou a provar algumas comidas exóticas, tais como sopa de formigas crocantes, escorpiões, coxas de rã e ensopado de cobra. Fomos também a um pub coreano onde tivemos o prazer de ouvir música portuguesa dos “Madredeus”. Na nossa estadia em Pequim ainda tivemos a oportunidade de dar uma entrevista para a Rádio China Internacional, departamento de Língua Portuguesa, que é difundida para todo o mundo.

Partimos com destino a Xian, à procura dos Guerreiros de Terracota. Vimos o Rio Amarelo – a sua cor deu-lhe o nome – as suas águas geralmente movem-se muito devagar, pachorrentamente, contudo por vezes, o mesmo galga as margens semeando a destruição.

Passámos por uma cidade que tem uma fábrica de ciclomotores, e cuja avenida principal está repleta de lojas dos mesmos, onde as nossas BMW fizeram sensação. Enquanto almoçávamos, os técnicos da fábrica e curiosos davam os seus palpites sobre a falta de corrente das GS.

Chegados a Xian, local histórico, constatamos que os seus guerreiros em terracota de tamanho natural, apesar dos seus 2000 anos estão bem conservados, protegidos agora por uma imensa cobertura. Este exército constituía uma força de vigilância perpétua da antiga necrópole do Imperador Qin Shihuang.

Prosseguimos para o Tibete onde estavam prestes a começar as dificuldades a sério. Tivemos de alterar o percurso e seguir pela estrada a Oeste do maciço de Liupan e rolar mais 350 Km do que previsto, pois a estrada a Este estava intransitável. Cruzávamos agora com Mongóis, Tibetanos, Kazaks, com maior frequência.

Numa das muitas estradas em terra – em que não se conseguiam cruzar dois veículos ao mesmo tempo – o camião que seguia na frente avariou e assim ficámos ali algum tempo, até o condutor o conseguir reparar com uma solução milagrosa. Eu explico: depois de ter tentado reparar a bomba injectora do camião, sem êxito, o condutor foi à cabina, trouxe com ele um frasco de chá, e verteu-o encharcando um pano sobre a bomba. E pronto, o Difeng lá começou a soluçar e pegou a trabalhar… Saímos dali graças a um frasco de chá! Entretanto chegados ao lago Qinghai, o maior lago salgado da China, aí ficámos a dormir.

Tibete

Capital: Lhase

Moeda: —
Língua Oficial: Tibetano

Continuando a subir para os 4.000m de altitude, surgiram as dificuldades em respirar, acompanhadas de tonturas, tendo inclusive de parar para descansar. Por várias vezes tentámos acender os cigarros mas em vão; pensávamos que estavam molhados, mas não, era da falta de oxigénio! A seguir a Tuotuo Keyan tínhamos alcançado o ponto mais alto: 5.321 m de altitude. Durante alguns dias mantiveram-se as dificuldades em respirar e tonturas, até chegarmos ao Nepal. Eis, finalmente, Lhasa, capital, coração e alma do Tibete. O Palácio Potala é, sem dúvida, a maior atracção de Lhasa. Tendo sido em tempos a sede do governo e a residência de Inverno do Dalai Lama, é de certeza um dos mais belos edifícios do Mundo. Descobrimos no seu interior câmaras de filmar e microfones escondidos para controlar e ouvir as conversas dos visitantes! Alguns tibetanos pediam-nos, à socapa – por ser proibido – fotos do Dalai Lama.

Aproveitámos também para visitar o templo de Junkor, os mosteiros de Será e Drepung, e o mosteiro de Drepung – construído no séc. XIV constituía nessa época o maior mosteiro do Tibete e do Mundo.

Partimos de Lhasa com destino a Kodari e foi um pesadelo, não havia estradas, apenas pistas e trilhos durante 1.100Km. Na ligação entre Shigáze e Tingri foi a loucura, um mar de lama durante horas, que nos deixa várias vezes atolados, mas, com a ajuda dos locais, lá íamos progredindo com enorme dificuldade. No final da tarde o Tito ficou atolado e não foi possível retirar a BMW do local, estávamos exaustos. O Tito ficaria nas montanhas a cerca de 4.000m de altitude, enquanto o João e os guias seguíam para Tingri para procurar ajuda. Mas neste dia a sorte não queria nada connosco, agora era a vez do jipe ficar atolado ao escolher a pista errada. O João era o único ainda em condições de prosseguir, mas tinha um problema: não falava chinês para ir buscar ajuda. Durante 2 horas tentámos, ingloriamente, retirá-lo daquele local. Tivemos de aguardar por um camião que o puxasse. Finalmente lá apareceu um 4X4 que rebocou o jipe e pudemos seguir. Era um dia negro. Depois foi a vez do João, no escuro da noite, cair ao rio e a moto ficou perto do mesmo destino. Com a queda o João perdeu uma grande angular e alguns rolos de filmes, mas com a ajuda da lanterna consegui recuperar a primeira e os rolos foram na corrente.

Continuámos com enorme sacrifício até à pequena vila, onde procurámos ajuda para ir buscar o Tito. Conseguimos reunir algumas pessoas e um camião e pusemo-nos a caminho das montanhas, mas eis que num cruzamento encontro o Tito noutro camião com a sua BMW – tinha convencido o condutor a trazer a sua moto até Tingri, está claro, a troco de pagamento.

Eram 3 horas da manhã e tínhamos feito 248 Km em 15 horas! Apesar de cansados tínhamos de continuar, com o mar de lama a acompanhar-nos até à fronteira sino-nepalesa de Kodari.

Persistia a chuva miudinha e começava a escurecer. Chegámos exaustos ao posto de controlo chinês e despedimo-nos dos nossos amigos tibetanos. Kodari parecia irreal: lama, lama e mais lama, fazendo lembrar as povoações do velho oeste, casas de madeira de ambos os lados da única rua enlameada. Disseram-nos ser impossível ir de moto até ao controlo nepalês, 10 quilómetros adiante, e de facto, apenas os camiões conseguiam atravessar esta terra de ninguém.

Negociámos um camião para transportar as motos esses 10 quilómetros – um autêntico carrossel de lama, correntes e quedas de água que se precipitavam sobre a estrada e depois corriam para o precipício com algumas centenas de metros. Nem queríamos acreditar no que nos era dado a observar!

Reino do Nepal

Capital: Katmandu
Moeda: Rupia Nepalesa
Língua Oficial: Nepalês

Chegados à alfândega nepalesa, esta encontrava-se fechada. Contudo, a generosidade dos guardas permitiu que entrássemos em território nepalês, com a condição de no dia seguinte voltarmos para tratar dos vistos.

Amavelmente o condutor do camião convidou-nos para jantar e dormir em sua casa, e não nos fizemos rogados. Mais tarde sentámo-nos à mesa sobre a qual a mulher servira arroz com um molho. Disseram-nos para começar a comer mas como não havia talheres ficámos um pouco surpresos até que, para conseguirmos resolver este impasse, convidámos o nosso amigo para comer connosco. Problema resolvido: misturou à mão o molho com o arroz usando a ponta dos dedos para comer. Aqui, ser o mais velho tem certas prerrogativas, neste caso, sendo a casa pequena, o Tito iria ter o privilégio de dormir na cozinha e o João no Tata (camião) junto das BMW. Durante a noite ouvindo barulho o Tito acordou e acendeu a luz – eram ratos!

Na manhã seguinte voltámos à alfândega nepalesa para nos colocarem os carimbos no passaporte e seguimos viagem para Catmandu, destino venerado nos anos 60, 70 e 80. Aí fizemos pequenas reparações nas motos e tentámos recuperar um pouco, num ambiente cosmopolita e displicente das pessoas.

Partimos para Este em direcção ao Annapurna – foram 3 dias bons, pois tínhamos alcatrão para rolar e apreciar a beleza deste país. Depois de passarmos por Butwal, voltámos às pistas de terra que alternavam com bocados de estrada.

Encontravam-se em construção 27 pontes sobre rios, 7 deles tivemos que passar a vau, 2 dos quais durante a noite, inacreditável! Revelou-se tarefa ingrata, ter de atravessar os rios a pé para escolher o melhor caminho, voltar e atravessar com as BMW, o que era difícil, pois quase sempre elas se enterravam no lodo; mas com a ajuda dos populares que esperavam nas margens, lá conseguimos resgatá-las do leito do rio. Com um enorme sacrifício alcançámos a fronteira indiana, prosseguindo então com destino a Nova Deli.

República da Índia

Capital: Nova Deli
Moeda: Rupia Indiana
Línguas Oficiais: Hindi, Inglês e mais 21 línguas nacionais.

A Índia, jóia da coroa inglesa, a maior democracia do mundo, autêntica torre de Babel, com 1600 dialectos, sendo os mais falados Hindu, Bengali, Urdu, Kannada, Telugu, Tamil, Malaiálin.

Seguindo para Chandernagor, cruzámo-nos com comboios militares com destino à fronteira do Paquistão. Já em Amritsar, no estado do Punjab, pudemos visitar o templo dourado dos Sikhs.

República do Paquistão

Capital: Islamabad
Moeda: Rupia
Língua Oficial: Urdu e Inglês

Paquistão: o Oeste selvagem. Na manhã seguinte partimos cedo para a fronteira indo-paquistanesa, com o objectivo de chegar a Islamabad nesse dia.

Cruzámos Lahore e começámos a circular na GT Road, uma espécie de circunvalação que liga o norte ao sul. Aqui, para nossa admiração, quase todas as pessoas andam armadas. Em Islamabad fomos à Embaixada Iraquiana confirmar os nossos vistos, e rezámos para que os americanos não tivessem bombardeado o Iraque nesses últimos dias, senão teríamos de dar uma volta maior.

Tratados os vistos, o João aproveitou para mudar o pneu traseiro que até à data já sofrera 8 furos, e parecia um queijo.

Seguimos para Taxila, Património Mundial, situada num vale e onde floresceram grandes civilizações. Foi ocasião para visitar o museu onde se encontram algumas das mais belas obras de arte desse período áureo.

Na manhã seguinte partimos para o Karakorum, na província de Caxemira, que liga o Oásis de Kasghar na China a Islamabad no Paquistão, passando por Kunjerab e pelo vale de Hunza. Em 1966, a China e o Paquistão projectaram e construíram a estrada mais alta do mundo com 1.200 Km, cruzando as cordilheiras do Karakorum e do Pamir. Encontrámos dois motards alemães, em duas BMW F-650 perto de Gilgit; passámos junto ao Nanba Parbat – a montanha assassina – e seguimos o curso do rio Indo. Karakorum é de uma beleza agreste extraordinária!

Rumámos para noroeste, com destino a Peshawar, com o objectivo de atravessar pela lendária passagem de Kybher, o elo de ligação ao Afeganistão. Peshawar, que contava 300.000 habitantes antes da guerra civil no Afeganistão, tem agora 2 milhões de refugiados, parecendo uma cidade afegã. Foi com alguma tristeza que tivemos de desistir de ir à passagem de Kybher, pois teríamos de contratar guarda-costas e pagar uma exorbitância pelo serviço.

As coisas começavam outra vez a aquecer. Para seguirmos para Oeste, em direcção ao Irão, atravessaríamos várias zonas tribais; tentámos contornar esta situação rumando para sul em direcção a Carachi. Passando Dera Ismail Khan, entrámos numa zona tribal e os militares obrigaram-nos a assinar um termo de responsabilidade para podermos prosseguir.

Estávamos nas montanhas Suleiman, onde a estrada é demasiado estreita para se cruzarem dois camiões, pelo que normalmente o ajudante do condutor segue a pé, algumas centenas de metros adiante, a fim de organizar a progressão. Contudo, os camionistas eram simpáticos e paravam deixando-nos passar. A certa altura, um cabo parte-se e torna-se necessário soldar uma das extremidades. O João partiu Fort Monroe que nos indicaram ficar a 15 Km, mas na realidade a distância era de 50 Km.

O Tito ficara sozinho, e agora os camionistas faziam sinais para que saísse dali quanto antes (Go, go, they shoot you, go!), pois várias pessoas armadas desciam das colinas. Um camionista parou, e saíram dois ajudantes, permanecendo os três com ele até o João voltar. Quando o João chegou, foi com bastante rapidez que colocámos o cabo e saímos daquele local. Tínhamos perdido tempo e como começava a escurecer, combinámos não parar até à aldeia mais próxima, seguindo sempre que podíamos junto aos camiões, para evitar circularmos sozinhos. Chegados à pequena aldeia, inquirimos a primeira pessoa que vimos sobre um local para pernoitarmos, ao que responderam que havia sim senhor, mas apenas em Queta que ficava a 350 Km!

Naquele dia os deuses do Universo estavam connosco. O simpático paquistanês de nome Omar, responsável pela brigada de reparações das estradas, ofereceu-nos dormida no acampamento, alertando-nos que se dormíssemos na rua, seríamos certamente assaltados, pois quase todas as pessoas que estavam deitadas junto à estrada eram foragidos. Nesse dia para jantar apenas tínhamos pão!

Estávamos no Balochistão, cuja área é 4 vezes a de Portugal, mas onde, por incrível que pareça, apenas existe uma cidade: Queta, capital da província. Saímos de Queta e rolámos depressa, percorrendo os 600 Km que faltavam para a fronteira iraniana.

República Islâmica do Irão

Capital: Teerão
Moeda: Rial
Língua Oficial: Persa

Na fronteira de Mirgave, os militares avisaram-nos que não devíamos sair da estrada principal, pois a situação era tensa junto à fronteira afegã, devido ao tráfico de droga e ao assassínio recente de diplomatas iranianos no Afeganistão. Recebemos a má notícia que teríamos que rumar a norte para o posto fronteiriço de Qsar-shrin, o único aberto com o Iraque, o que nos obrigaria a fazer 700 Km extra. Deixámos a fronteira rumo a Zahedan, cidade onde pernoitámos, no dia em que já se refugiara sob protecção policial a restante equipa da SIC que escapou ao rapto.

Partimos cedo, andando depressa e bem, atravessámos Kermam, Yazd, Esfahan. E é verdade – o Irão tem melhores estradas que Portugal! Continuámos para norte até Hamadan, encontrámos um motard suíço viajando sozinho numa BMW GS, e alugámos um apartamento por 10 dólares para os três. Uma noite bem passada, trocando impressões sobre as nossas viagens. Só visto!

Iraque

Capital: Bagdad
Moeda: Dinar Iraquiano
Línguas Oficiais: Árabe e Curdo

Atravessámos os 100 m de terra que separam o Irão do Iraque: de um lado o Ayatollah Khomeini e do outro, Saddam Hussein com os seus óculos Ray Ban.

De todos os países que atravessámos este foi o primeiro onde exigiram despejar o conteúdo das malas e mochilas e nos revistaram. Selaram-nos as objectivas e o telemóvel Satélite da TMN, tivemos de declarar todo o dinheiro que tínhamos em moeda, os travellers não valem nada devido ao embargo, e por fim disseram-nos que teríamos de tomar a vacina contra a SIDA. O Tito olhou para mim e disse: «J.P., estamos há 2 meses fora da “civilização” e já descobriram a vacina da SIDA!» Lá fomos ao médico, que nos questionou se estávamos bem de saúde, ao que respondemos afirmativamente. Então deu-nos um papel vermelho carimbado, dizendo: «Estão vacinados contra a SIDA, não percam esse papel, pois vão precisar dele para entrar na Jordânia, lá é exigido. São 50 dólares pela vacina.»

Depois de pagar a vacina, os direitos de passagem das prendas por território iraquiano, o seguro das motos, e outras tantas taxas, ficámos depenados!
Tínhamos apenas os depósitos das motos atestados, o que dava para chegar a Bagdad. Entretanto presenciámos a troca de prisioneiros da guerra Irão-Iraque: 250 iraquianos regressavam a casa, alguns com 18 anos em cativeiro!

Entrávamos no Iraque ao escurecer sem dinheiro. Começámos a ser controlados pelos militares aos quais dizíamos: «Hotel Bagdad», e lá prosseguimos pelas povoações perguntando se havia algum local para dormir, e a resposta era sempre a mesma: Bagdad. Depois, parámos na estrada junto a uma venda de fruta, indagando sobre algum local para podermos ficar. O vendedor tinha uma MZ 125, e convidou-nos para sua casa. Lá fomos – Alá estava connosco! Família generosa e simpática, deu o que tinham: vegetais, iogurte líquido, pão e fruta e colchões para dormir. Retribuímos em maços de tabaco português e adormecemos rapidamente. Na manhã seguinte ofereceram-nos tâmaras secas e romãs para a viagem. Seguimos para Babilónia e ficámos decepcionados: poucos tijolos remanescentes, alguns deles assinados por Saddam Hussein para perpetuar o seu nome, pois julga-se descendente de Nabocudonusor. Tudo o que é de valor está nos museus alemães, franceses e americanos.

Chegando a Bagdad, fomos interpelados por um sujeito à civil que nos pediu os passaportes. O Tito, à boa maneira ocidental, pediu-lhe a identificação, ao que ele mostrou a pistola. O Tito retorquiu: no document, paper; ele apontou para a pistola dizendo: paper; estávamos esclarecidos, já não saímos daquele local até chegar um graduado. Depois de verificar os papéis, perguntou em que nos podia ser útil. Necessitávamos de encontrar a Embaixada Portuguesa, pois não tínhamos dinheiro. Gentilmente disponibilizou-se a acompanhar-nos lá, indicando o caminho.

Andámos 2 horas à procura da Embaixada, por duas vezes nos levou à embaixada da Indonésia!!! «Não é a mesma coisa?» perguntou o oficial. Depois fomos parar à da Polónia, «já estamos mais “perto”», disse o João, «fica na Europa e começa por P». Escureceu e não encontrávamos a Embaixada. Em desespero de causa, pedimos que nos levasse à espanhola, mas não sabia onde ficava. Afirmou conhecer a Embaixada Francesa; «ok, aí vamos nós». Uma vez lá, agradecemos todas aquelas voltas que deram durante 2 horas connosco. O gendarme de serviço tratou logo de ligar para a Embaixada Portuguesa, chegando pouco depois o chanceler que nos levou para a Embaixada Portuguesa.

Não temos palavras. O chanceler, Protássio Afonso, à boa maneira portuguesa ajudou-nos a sair do Iraque: trocou-nos travellers cheques, ofereceu-nos o jantar, dormida, pequeno-almoço, levou-nos à entrada da auto-estrada que liga Bagdad à Jordânia.

Reino da Jordânica

Capital: Amã
Moeda: Dinar Jordaniano
Língua Oficial: Árabe

Foi a etapa mais longa da nossa viagem: fizemos nesse dia 920 Km, até Amã, onde chegámos já escuro.

Partimos para Petra, o tesouro da Jordânia, visitada por milhares de turistas e onde o Tito andou pela 1ª vez de cavalo, um puro-sangue árabe!

República do Egipto

Capital: Cairo
Moeda: Libra Egípcia
Língua Oficial: Árabe

Seguimos para Aqaba para apanhar o ferry para a península do Sinai no Egipto. Mais uma vez fomos apanhados pelo elevado nível de vida, desta vez dos egípcios: 4 fotocópias na fronteira, 40 dólares.
Seguimos para Sharm-El-Sheik, no Mar Vermelho – local sagrado para os mergulhadores – nós apenas tomámos umas banhocas. Contornámos a península do Sinai até ao Canal do Suez.
No Suez ficámos no Hotel White House. O empregado, que apenas abriu a porta do elevador, disse «TIPS»; respondi: «o Tito está lá fora»; ele dirigiu-se ao Tito dizendo TIPS mais uma vez (N.R. – Tips em inglês significa gorjeta.), «ó João, ainda agora cheguei, já sabem o meu nome!» exclamou o Tito.

Partimos rumo ao Cairo, para ver as pirâmides de Gizé, que distam apenas 100 metros da cidade. São de facto imponentes, com os seus blocos de pedra de mais de 2 metros de altura.

Seguimos para o porto de Alexandria no mediterrâneo, onde constatámos uma elevada taxa de poluição, bem como os estragos da mesma em todo o ecossistema do delta do Nilo.

El-Alamein, local histórico durante a II Guerra Mundial, onde o Afrika Korps de Rommel foi derrotado pelo exército aliado, é hoje uma pequena aldeia com um museu militar.

Grande Jamahiriych Socialista Popular da Libia Árabe

Capital: Tripoli
Moeda: Dinar
Língua Oficial: Árabe

Dirigimo-nos à Líbia, onde foram necessárias novas matrículas para as BMW. Depois de 6 horas na fronteira entrávamos no reino de Khadafi.
Seguimos então para Tobruq, porto histórico no decorrer da II Guerra Mundial, por ser o local onde deram a vida, numa luta pela liberdade ou pela opressão, 12.000 almas que repousam nos cemitérios francês, alemão e inglês.

Benghazi, seria a nossa paragem para repousar, mas nada feito. Um enlatado líbio abre a porta, e acerta na mala lateral da BMW, provocando mais uma queda, desta feita sem ferimentos. Danos materiais: 2 malas danificadas e um aperto de mão pois nenhum dos dois tinha seguro das viaturas. Fomos para o hotel soldar as malas aos respectivos suportes.

Depois deste final de tarde alucinante, tomar um banho no hotel era o que mais apetecia. O Tito foi o primeiro e começou a reclamar do sabonete, que não prestava, pois não “agarrava” – pudera, a água era salgada!

Seguimos para Sirte, terra natal de Khadafi, e avisaram-nos para nunca viajar durante a noite pois os camelos, deitavam-se na estrada aproveitando o calor do alcatrão para fazer face ao frio da noite, provocam encontros imediatos, e fatais, tal era a quantidade de carcaças recentes em decomposição nas bermas e alguns carros incendiados. Agora o nosso objectivo era Leptis-Magna, património mundial, antiga cidade romana no Norte de África, um belo local junto ao mar.
Tripoli, cidade com uma VCI idêntica à do Porto, mas onde os condutores são mais “rápidos”.

República Tunisiana

Capital: Tunes
Moeda: Dinar Tunisino
Língua Oficial: Árabe

Continuando para Ras Adjir, na Tunísia, pernoitámos em Medine, e passámos pelo túnel que dá acesso à ilha de Djerba.

Sousse, Tunis, onde efectuámos as últimas reparações e verificações das BMW antes de entrar na Europa. Depois França, Espanha e finalmente Portugal.

Porto – Capital Europeia da Cultura 2001

Manifestámos o nosso obrigado a todos os patrocinadores, pela compreensão do projecto e o apoio dado ao mesmo. O nosso sincero agradecimento também para: Ana da Câmara (Macau), Ana Felício (Pequim), Bruno Soares (Portugal), Francisca (Macau), Joaquim Guarda (Portugal), Jorge Olímpio Bento (Portugal), José Senra (Portugal), Mica Costa Grande (Macau), Protássio Afonso (Iraque), e muitos outros…

 

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