A Educação é o único caminho

República Democrática do Congo

Capital: Kinshasa
Moeda: Franco Congolês
Língua Oficial: Francês

Quinta-feira, 11 de Setembro.

Prosseguimos até à fronteira de Angola com a Republica Democrática do Congo, e aí entrámos noutra aventura.
Uma pequena tabuleta dizia: Congo Belga. Cabe aqui referir que o Tito é nascido na República Democrática do Congo, em Kalima Pangi, na zona de Kivu no Norte Nordeste, junto ao Ruanda Burundi, região infelizmente conhecida pelas chacinas e genocídio que aí têm sido praticados por ambos os adversários, tanto Tutsis como Hutus.
Segundo informações prestadas por Abdellahi da ONU, nem valia a pena tentar ir a Kalima. É uma vila completamente destruída que o Tito não iria reconhecer. Ali, na fronteira, como na embaixada da R.D. Congo em Portugal, disseram-lhe que nem de avião se garantiam condições de segurança para visitar essa zona.
Fomos interpelados pela polícia da fronteira que nos chamou à atenção, com um ar altivo, de que o passaporte do Tito dizia que ele tinha nascido no Zaire quando o país se chama agora de R.D.Congo. A discussão foi endurecendo, em torno de aspectos burocráticos, desnecessários e injustificados, e só terminou passada uma hora, sem subornos. Despedimo-nos dos jovens que nos acompanharam desde Maquela do Zombo no camião da missão e que eram originários de uma tribo que se estabelece de ambos os lados da fronteira bem como de dois motociclistas, entretanto chegados que faziam o caminho inverso ao nosso e com quem trocámos informações úteis.

Após as formalidades, dirigimo-nos à missão protestante tendo em vista arranjar gasolina. Dois jovens motociclistas que ali se encontravam, combalidos física e psicologicamente, pelas dificuldades do terreno que tinham atravessado, cederam-nos alguma, da pouca que tinham e passaram-nos o contacto de um português simpático, o Zé Mendes, que haviam encontrado em Kinshasa.

Chegados à capital fizemos uma paragem para almoço e procura de postais para manter viva a tradição de enviar aos patrocinadores um de cada um dos países atravessados. Tudo fechado, era Domingo. Nova tentativa: encontrar um local de onde se pudesse enviar um e-mail com fotos. Finalmente, quando estávamos em diálogo com o dono do cyber café, fomos abordados por um belga e um congolês que perguntam de onde é que vínhamos! Fomos, então, apresentados a jornalistas de um diário de grande tiragem de Kinshasa que solicitaram uma reportagem.
O português, o Zé Mendes, revelou-se um homem excepcional. Falava fluentemente o Kiswahili, ou Swahili, a grande língua de África, e disponibilizou-se para ser nosso cicerone, nos arranjar dormida e nos acompanhar ao jornal. Entretanto o jornal contactou um canal de televisão que também veio fazer a reportagem, juntamente com um outro canal que o Zé Mendes conhecia, o que resultou em duas horas e meia de entrevistas e reportagens!
Afastámo-nos do caótico centro de Kinshasa, seguindo o carro do Zé Mendes, que pegava por ligação directa e dispensava chaves, chocalhava e roncava por todos os lados! Naquele carro incrível, ele dizia que ia até ao fim do mundo.
Depois de percorridos 25 quilómetros, o trânsito era ainda fervilhante, as ruas cheias de vendedores, o caos, a turbulência, a poluição, o barulho estavam completamente instalados. Zé Mendes apresentou-nos Papillon, antigo membro da secreta do presidente Mobutu, dono de uma quintinha nas margens do rio Congo, de onde se podia ver a capital do país vizinho, Brazzaville. Era uma casa agradável, com piscina, onde vivia com a mulher e as três filhas do último casamento. Papillon, com cerca de 50 anos, era assim chamado por ter orelhas muito grandes, parecendo uma borboleta. Pôs a sua casa à disposição e lá estivemos em amena cavaqueira, tirando fotografias ao rio Congo com uma magnífica luz de fim de tarde.
Papillon, que tinha excelentes relações com alguns elementos da cultura e das artes da capital, promovia nesse dia, na sua quinta, uma exposição de escultura, gravura e pintura de alguns jovens artistas.
No dia seguinte, tomámos o pequeno-almoço com o nosso anfitrião, a mulher e as filhas. As crianças tinham um ar saudável e contente, brincavam descalças no jardim, nas pedras, na areia; eram obviamente privilegiadas naquela cidade, distinguiam-se pois das muitas crianças com ar pobre que vimos.
Chegou então a altura de irmos confirmar o veredicto sobre a fractura das costelas do Tito e assim dirigimo-nos ao Hospital Central. Aí chegados, o Zé Mendes mandou-nos esperar, disse que não valia a pena entrar pela porta oficial, porque iríamos pagar um valor muito elevado. Decidiu ir ao Raio-X falar com o enfermeiro e o médico e pedir-lhes para ver o Tito de uma forma clandestina. Pagar-se-ia muito menos, a eles, directamente, não haveria facturas, tudo se passaria da melhor maneira. Ao fim de meia hora, regressou e disse:
«Está tudo arranjado».
Lá avançámos pelos corredores imensos do hospital que se encontrava praticamente deserto, ouvindo-se em alguns pontos o relato de um jogo de futebol. Uma máquina antiquada ditou a sentença não havia nada partido, mas sim uma forte distensão muscular que provocava aquelas dores. A receita foi umas pastilhas para acalmar as dores e uma pomada para massajar. Mas a notícia de que não havia nada partido foi o mais importante.
Era tempo de preparar nova partida para estar na fronteira no dia seguinte, cedo.
Apanhámos as nossas coisas em casa de Papillon, deixámos algum dinheiro para as crianças, (aconselhados pelo Zé Mendes), e fomos dormir a casa de outro amigo, num condomínio fechado, guardado com segurança, onde as condições também eram óptimas.
Era uma pequena vivenda muito agradável, de um português, que estava ainda a trabalhar no Congo, mas que já preparava a ida para o Uíge, em Angola. Durante a tarde, ainda conhecemos no restaurante alguns portugueses da comunidade local. Um deles, refugiado da ONU, aguardava luz verde para regressar a Angola e recuperar as propriedades que estavam a ser devolvidas pelo governo angolano aos antigos proprietários.
Conhecemos, também, o comandante da força de segurança pessoal do presidente Kabila, o militar que conduzia uma das motos da guarda de honra do presidente nas suas escoltas. Era volumoso, de uma simpatia enorme e sempre de óculos escuros. O João Pedro prometeu enviar-lhe um dos seus fatos de motard.

Fizemos compras para o jantar na mercearia do libanês. Trocámos também algum dinheiro. O serão foi passado em frente à RTP África, que se captava naquela zona.
No dia seguinte seguimos para o local combinado. O Zé Mendes apareceu com meia hora de atraso no seu carro barulhento… Com um carro daqueles, pontualidade era difícil… As pessoas juntavam-se à nossa volta aos magotes, fascinadas com as motas, como que querendo tocar-lhes.
Após as formalidades alfandegárias, pedimos ao Zé Mendes um último grande favor: que arranjasse postais do Congo-Kinshasa para enviar para Portugal. Para tal deixámos-lhe 100 dólares e demos-lhe a lista das pessoas a quem os enviar. Ainda comentámos entre nós que ninguém iria receber os postais… Mas o que é certo é que receberam, ele cumpriu o prometido.
Apanhámos então o ferry-boat para chegarmos ao Congo Brazzaville. Este barco destinado apenas ao transporte de pessoas e que excepcionalmente transportou as nossas motas, encheu até parecer transbordar. Vimo-nos então rodeados de carros de inválidos e deficientes, puxados manualmente ou com pedaleiras de bicicleta, que rodam pela força de braços. Um caos! Um barulho infernal, uns polícias a fazerem sinais que não podíamos tirar fotografias e as pessoas a dizerem para não ligarmos, que os polícias eram parvos!
Quando finalmente julgámos que íamos fazer a travessia, chegou a informação de que tínhamos que esperar! O presidente do Congo-Brazzaville, tendo tido no dia anterior a informação de que a oposição tinha declarado, em França, que ia regressar ao país, mandou fechar a fronteira. Ficámos para lá do gradeamento, numa zona de ninguém, à espera.
Três a quatro horas depois, após termos tirado muitas fotografias e termos conversado com muita gente, sobre vários assuntos, nomeadamente o preço de um motor para aplicar em cadeiras de rodas, o presidente lá resolveu abrir as fronteiras. Começámos, então a navegar em direcção a Brazzaville, nas águas agitadas do poderoso rio Congo, o 2º maior rio de África, onde em certas zonas chega a ter 16 km de largura.

—– República Democrática do Congo, ex-Zaire com Mobutu o ditador e ex-Congo Belga, foi durante muitos anos propriedade privada do rei Leopoldo, tendo mais tarde, após a 2ª Guerra, passados à tutela da Bélgica, sendo actualmente dominado por Joseph Kabila, o qual sucedeu ao pai, assassinado numa tentativa de golpe de estado.
É uma das zonas mais ricas do globo, em petróleo, em diamantes, em ouro, em urânio, em metais raros, com florestas imensas,
Este país, um dos maiores de África muito cobiçado interna e externamente, com conflitos particularmente sangrentos, corre o risco de se desmembrar destruindo o sonho, do fundador da independência Patrice Lumumba, de preservar a unidade nacional

República do Congo

Capital: Brazzaville
Moeda: Franco CFA
Língua Oficial: Francês

Sábado, 15 de Setembro.

A viagem de meia hora terminou de um modo impensável! Quando foi encostado ao cais, o barco, que por ser só de transporte de passageiros, parou junto a uma escadaria de uns 50 degraus! Ficámos estarrecidos a pensar como é que iríamos sair dali! Nós e toda aquela gente, os carrinhos de inválidos e os paralíticos!
A resposta veio de uma forma surpreendente, agitada pela azáfama, perigosa, até! De repente, estávamos rodeados por muitos jovens que agarraram as motas por todos os sítios, alguns não muito fortes, como por exemplo nos piscas, na iminência de estragar tudo. Levantaram as motas em peso, connosco ainda em cima delas. Berrando, pedíamos para sair, o que efectivamente aconteceu. Depois ergueram-nas de novo, arrastando-as pelos degraus acima, empurrando quem estivesse à volta! Claro que não havia alternativa.
Quando chegou a altura de pagar é que foram elas. A exigência de pagamento era muito elevada, dirigimo-nos a um polícia que estava na fronteira e perguntámos qual seria o preço justo por aquele serviço. Perante a resposta do polícia, pagámos. No entanto, os jovens não ficaram satisfeitos e perseguiram-nos até ao edifício da fronteira., exigindo mais dinheiro, dizendo que foram necessárias cerca de 20 pessoas a pegar nas motas, o que era de todo impossível.
A nossa intenção era ir até Ponta Negra, junto ao mar. A polícia, disse-nos taxativamente: “Meus amigos, se vocês vão para Ponta Negra, encontram uma zona que é dominada pelos rebeldes. Como tal, atravessar a floresta não oferece o mínimo de segurança. Uma a duas vezes por semana são feitos comboios militares, mas asseguro-vos que nem hoje nem amanhã vai haver”.
Resignados, aventurámo-nos a sair de Brazaville, esperámos mais de duas horas para trocar dinheiro, fomos autenticamente roubados, pagando juros e comissões exageradas. Arrancámos para norte a caminho da fronteira com o Gabão. Entrámos pela floresta, esganados de fome. A escassez de alimentos era grande e surpreendentemente, nem nesta zona, nem nas anteriores, encontrámos aquilo que achávamos ir encontrar: bancas com frutas variadas.
Só bastante mais tarde, já ao anoitecer vislumbrámos uma grande recta, que mais parecia uma pista de aterragem. Ao longo da estrada, dezenas de velas acesas davam um aspecto de pista iluminada. Eram somente bancas de venda, dezenas de pequenas mesas numa extensão enorme, onde se compravam comida e todo o tipo de apetrechos.

Parámos e automaticamente fomos engolidos pela multidão, que se aproximou curiosa. Um jovem disse: “Eu sou filho do chefe da polícia, venham atrás de mim que há ali um pequeno hotel onde podem dormir”. Desconfiados, embrenhámo-nos pela floresta dentro, só com a luz do candeeiro a petróleo que ele levava nas mãos e a luz das motas. Acabámos por chegar a um local com muitas palhotas, onde um senhor de idade apareceu. «Eu vi-vos ontem na televisão». Era o chefe da Polícia, desta pequena vila chamada N’go, que tinha electricidade em casa e televisão, e tinha visto a reportagem que nos tinham feito em Kinshasa uns dias antes. “Vocês dormem ali, num hotelzinho”.

Chamar àquilo hotel, não é insulto, é uma provocação! Aquilo eram quartos em que as portas tinham uma ventilação muito especial: na parte de baixo, a altura dava para meter quase um pé, a iluminação era a petróleo, tinha uma cama, não havia lençóis nem cobertores. Instalámo-nos com os nossos sacos cama!
Comprámos numa braiserie carne grelhada, um bom pão de lenha, cola e laranjada, em quantidade suficiente para que o filho do chefe da polícia e os amigos que entretanto apareceram nos pudessem acompanhar e por fim dormimos, cansados.
Na manhã seguinte, montámos nas motas a caminho da fronteira com o Gabão. Pela distância que tínhamos no mapa, pensámos chegar nesse mesmo dia a Leconi, já no Gabão. Mas não, tal não aconteceu, nem nesse dia nem nos três dias seguintes.
Os agentes da fronteira, no Congo-Brazzaville, tentam sacar-nos dinheiro. Primeiro, disseram que tínhamos de tirar um visto de saída; e o Tito, certo de que isso não existia, fingindo telefonar para o embaixador com o telemóvel satélite da TMN, recusou-se a pagar fosse o que fosse. Perante esta atitude, o Serviço de Fronteiras carimbou os passaportes e mandou-nos embora.
Mais à frente chegou a vez da Polícia. Essa, mais directa, disse logo que queria dinheiro para nos deixar sair. Mais uma vez, fizemos a cena da recusa, a cena do embaixador ao telefone, e ainda fomos à mota buscar documentos obtidos na embaixada em Portugal com um carimbo verde, que era uma autorização especial de passagem. Perante isto, eles retorquiram que tínhamos percebido mal: o que eles perguntavam, era se nós os queríamos ajudar, mas não exigiam qualquer quantia…
Temos consciência de que os salários são miseráveis, de que as nossas motas são uma espécie de ostentação provocatória… Mas se vamos aceitar de uma forma pacífica as exigências que nos fazem, algumas veladas, outras explícitas, não há dinheiro nem capacidade para aguentar uma viagem destas.
Arrancámos para a selva aproximando-nos do Gabão.
Faltavam 25 quilómetros até uma pequena aldeia chamada N’Gambié, que custaram cerca de 4 horas a completar. A progressão era de uma dificuldade incrível, feita sobre capim raso queimado e areia mole.Com tracção nas quatro rodas até os jipes tinham dificuldade em progredir e ficavam enterrados. Verdadeiramente arrasador. Ao descer a montanha reparando numa pequena aldeia junto ao rio o Tito disse, grave, para o João Pedro:
«Eu paro por aqui. Deixa tudo comigo e arranca até à aldeia para nos virem ajudar. Estou arrasado».
O que faz um homem, sozinho, exausto, no meio da selva? O Tito fez fotografias, entreteve-se com os ruídos da natureza, olhou para as árvores, sentiu-se invadido por uma sensação de solidão. «E se aparece aqui um animal selvagem?» Pega na sua faca, procura as árvores mais altas mas eram quase todas raquíticas, sem grandes condições para poder fugir. Nem para dar sombra estas árvores serviam…
Cerca de uma hora depois, começou a ouvir vozes. Dá uns gritos, chama, até que aparece o João Pedro com mais 10 ou 15 jovens que vêm da aldeia, cantando, bem dispostos, prontos para ajudar. Uns pegam nas rodas, outros pegam nas malas, todos com as coisas à cabeça, e por um novo caminho, atravessámos os campos até chegar à aldeia de N’Gambié.
Aí estava um rebuliço à volta da mota do João Pedro. Todos a perguntarem se o Tito estava bem, a oferecerem água, já que de comer só havia mandioca.
Na aldeia, ao entardecer, fizeram esforços para encontrarem qualquer coisa para comermos, sabendo que não gostamos lá muito de mandioca… Fizeram uma cama agradável na cabana do chefe, “Le Vieux”, 60 anos, casado com 4 mulheres e pai de 25 filhos. A aldeia girava quase toda à volta dele. Como o Tito tem 52 anos, tornou-se rapidamente no “Deuxième Chef”. Explicaram que, embora houvesse uma mulher mais velha, as mulheres não podiam ser chefes da aldeia. O João Pedro era o “Le Jeune”.
Lá conseguiram improvisar uma omeleta de dois ovos, que uma das filhas, que se dizia educadora de infância em Brazzaville, tinha trazido. Fotografámos a nossa primeira refeição em N’Gambié: o pão que nos sobrava da anterior aldeia, mais um prato de estanho (ou de lata) com a omeleta.
O chefe quis honrar os visitantes com uma festa e à noite mandou acender grandes fogueiras. À luz das chamas e dos faróis das motas, dançou-se de uma forma cada vez mais frenética ao som dos batuques. Até que duas jovens mais atrevidas saíram da roda e foram insinuantemente desafiar o João Pedro a dançar…, o que o envergonhou um pouco.

Nessa noite, após a festa, apagaram-se as fogueiras e fomos para as cabanas dormir.
Tendo ficado a dormir na cabana do Velho Chefe, deram-nos um espaço com uma certa privacidade, com uma cama e colchão, fizeram-nos mosquiteiros, trataram-nos como irmãos. Era uma cabana feita de colmo, praticamente sem divisórias, pais e filhos viviam todos mais ou menos juntos, e aos olhos ocidentais parecia haver ali uma certa promiscuidade. Embora fosse chamada a cabana do Velho Chefe, na realidade ele vivia numa outra cabana mais afastada; nesta vivia o filho mais velho com a mulher e três filhos.

No dia seguinte, ao alvorecer, como num ritual, as pessoas dirigiam-se ao rio Lekéti, um rio de águas cristalinas, e tomavam o seu banho. Os homens numa zona e as mulheres a cerca de 50 metros, banhando-se seminuas com grande à vontade.

Logo de manhã apareceu um homem do Togo com um camião. Após uma longa discussão, acertámos o preço que nos cobraria por levar a mota do Tito, (até ao Gabão eram mais 120 a 130 quilómetros, no mesmo tipo de terreno que tínhamos enfrentado à chegada à aldeia de N’Gambié, e o Tito não estava em condições físicas de o fazer). O homem do Togo combinou aparecer ao fim do dia para fazer a travessia. O João Pedro resolveu partir até Leconi, no Gabão, tendo combinado encontrar-se mais tarde, quando o Tito chegasse na boleia do togonês. Não tivemos em conta que estávamos em África… O homem só apareceu passados dois dias… O Tito, preocupado, esperou na aldeia que aparecesse esse ou outro camião para poder ser transportado para o Gabão, perguntando a todos quantos de lá chegavam se tinham visto ou se tinham notícias do seu companheiro de viagem. È que o João Pedro levara o telemóvel satélite e por isso, ali isolado, não tinha forma de tentar obter quaisquer notícias. Investido da sua qualidade de “Deuxième Chef”, arrancava para as tarefas diárias, quase médicas, aproveitando aqueles dias para tirar muitas fotografias e visitar mais profundamente a aldeia, ir mais longe junto ao mato, sempre na ânsia que o homem do Togo aparecesse…

Já no primeiro dia, aproximou-se um pai, que pediu remédios para o seu filho bebé. Tirámos a febre à criança e face aos sintomas constatámos que devia ser uma gripe. Pegámos nos medicamentos que levávamos, vimos a posologia, e explicámos-lhe que de oito em oito horas era necessário tomar a medicação: meio comprimido. É claro que no dia seguinte apercebemo-nos que, sem relógio, sem uma noção exacta do tempo, orientando-se pela altura do sol no horizonte, com o calor que se fazia sentir e que obrigava àquela lassitude da África Equatorial, era difícil calcular o tempo. Na sequência da divulgação que esse pai fez, apareceram mais quatro pais, (dois pais e duas mães), o Velho Chefe e um dos seus filhos, com diarreia, a pedirem remédios.

Então, a tarefa do Tito após a partida do João Pedro foi apontar uma agenda de consultas e tomas de medicamentos, avisando todos, um a um, dia e noite, a hora da toma.

Um dia, o Tito conseguiu arranjar uma espécie de limas ou laranjas, verdes por fora mas maduras por dentro, e grandes, com que se deliciou e acalmou a fome que já vinha sentindo há dias. Noutro dia deram-lhe carne, mataram uma galinha-do-mato. Noutro dia ainda, cobra de mato. E lá foi também comendo mandioca… Comia bastante cana-de-açúcar. Estava a conseguir ficar elegante!

Na cabana do Velho Chefe havia a tal criança que tossia muito. O Tito lembrou-se de pedir que lhe arranjassem uma grande quantidade de cana-de-açúcar. Mandou descascar e ferver num pote enorme. Durante cerca de duas horas ferveu num lume de muita lenha, até ficar bem cozida. De vez em quando mandava tirar uns bocados de cana, e esmagar no pilão, e tornar a pôr lá dentro. Com um lenço com características de gaze pedia para tirarem a parte sólida. Por fim, ao líquido açucarado que começou a ficar bastante espesso juntou se uma grande quantidade de sumo, das laranjas-limas que lá existiam, fazendo uma espécie de xarope para dar às crianças que tinham tosse. O facto é que resultou, amaciou. Era muito doce, bastante doce mesmo, porque, claro, o Tito também provou! Sabia àqueles rebuçados caseiros de mel e limão. Muitas crianças iam aparecendo e também queriam aquele xarope, porque sabiam que era doce, e fez-se logo uma boa quantidade. No dia seguinte, tornou-se a repetir a dose.

Naquela aldeia, os miúdos brincavam com os seus carros, fabulosos. Sendo integralmente feitos em madeira e bocados de borracha, até molas tinham! Pneus e casca seca da cana faziam de mola em tensão e os carros, alguns a imitar jipes, viravam à esquerda e à direita. Eram de uma imaginação e criatividade incríveis! Aqui ainda é possível constatar que o brinquedo é uma invenção da criança e não como na nossa sociedade uma oferta de um adulto.

Enquanto descobria as redondezas, Tito constatou que por ali, as campas dos mortos adquirem uma grande altura de terra por fora pois, não existem utensílios para escavar fundo. Dizem os locais que é para impedir que os animais selvagens venham retirar os corpos. Nessas campas, estão todos os bens que o morto possuía em vida. Os exemplos são bizarros: uma senhora de idade tinha a sua velha cadeira de verga, dois ou três panos, tipo lençol, que cobriam a campa, três ou quatro pratos, as suas sandálias de plástico; mais à frente, uma campa pequena, certamente de um bebé, tinha roupas estragadas e um biberão; noutra havia garrafas, uma faca, um prato, roupa de homem. É impressionante constatar, a partir destes despojos, quão pobres são estas gentes. Apesar disso, estes haveres não são tocados por ninguém, mesmo os objectos que poderiam ser reutilizados como os sapatos ou as sandálias.
Pedindo licença aos Deuses que regem o Universo, o Tito foi tirando algumas fotografias!

O homem do Togo apareceu, como já sabemos, dois dias depois querendo renegociar o preço. Exigiu dez vezes mais do que o inicialmente acordado! Em desespero, o Tito ainda pensou aceitar, apesar de ser um preço exorbitante, até na Europa. Foi surpreendido pela posição do chefe da aldeia e dos seus habitantes que, tendo testemunhado a negociação dias antes, enfrentaram o homem do Togo:
“Ou o senhor mantém o preço e leva o homem branco e a moto, conforme a sua palavra de há dois dias, ou então não atravessa mais o rio na nossa barcaça e vai fazer mais 200 quilómetros até encontrar outro local para fazer a travessia!”
O outro ficou furioso, começou a gritar e a gesticular, mas o chefe manteve-se inflexível. O homem do Togo não tinha alternativas. Entretanto, aparece um miúdo, a correr, esbaforido, e a gritar: “Pedro, Pedro, Pedro”. Era o João Pedro, que estava de regresso com um jipe arranjado em Leconi. Contou das imensas dificuldades que tinha tido para chegar ao Gabão.

Com efeito, após as despedidas, o João Pedro partira para fazer os 120 quilómetros que separam N’Gambié e Leconi, tendo traçado uma estratégia para atravessar os planaltos do Congo em direcção ao Gabão.
Esta estratégia consistia em parar 5 minutos em cada 15 de condução, pois era a única forma de fazer este trajecto correndo os riscos calculados, pois estava sozinho o que o deixava apreensivo.
Logo após ter atravessado o rio constatou que os primeiros 200 metros eram apenas areia mole o que tornou a partida emocionante. A primeira montanha tinha cerca de 2 quilómetros de subida. Seguiu pelo meio da vegetação, em progressão lenta sem conseguir ver mais do que 100 a 150 metros. De repente deixou de ver o rio, avançou seguindo ao longo na pista. Na primeira hora conseguiu fazer apenas cerca de 20 quilómetros, mas achou que tinha conseguido um bom resultado. A este ritmo conseguiria chegar a Leconi no mesmo dia. A progressão continuou lenta. A determinada altura a pista dividiu-se em duas, o que lhe deixou algumas dúvidas. O João Pedro relembrou então as palavras do filho do chefe da aldeia que lhe recomendou que seguisse sempre pela direita. A cerca de 500 metros viu um animal que não pôde perceber o que era, tinha uma silhueta parecida com uma gazela e da mesma forma que apareceu, desapareceu rapidamente. A mota saltava a um ritmo avassalador, o que levou o João a pensar que ela não aguentaria esta ligação e se ia desfazer.
A meio da tarde viu a primeira cabana. Apercebeu-se então que estava próximo de Leconi. Cerca de meia hora depois apareceu alcatrão, o que o deixou muito contente, pois tinha conseguido chegar sem haver problemas de maior. Dirigiu-se à polícia para fazer o registo e carimbar o passaporte e informou que ficaria no único hotel da pequena cidade e que brevemente chegaria outro português. Seguiu para o hotel e aproveitou este tempo para verificar a sua BMW, pois esta ligação tinha sido demolidora. A mesma estava sem problemas. Tomou um banho e esperou que o Tito chegasse, o que não aconteceu. Já depois de escurecer, dirigiu-se à polícia dando conta da sua preocupação, tendo-lhe sido dito que era normal os viajantes ficarem a dormir nos planaltos quando a noite chega.
Nessa noite, embora apreensivo, o cansaço venceu-o e adormeceu.
Na manhã seguinte o João Pedro acordou e percorreu a cidade a tentar descobrir se tinha chegado alguém do Congo – Brazzaville. Mas ninguém tinha chegado! A manhã passou e como a meio da tarde o Tito ainda não tinha aparecido, o João Pedro, deveras preocupado, dirigiu-se de novo à polícia e perguntou se o podiam acompanhar pela pista, pois talvez tivesse havido um acidente ou coisa parecida. A polícia informou que não era possível, pois não tinham combustível para o jipe. Incrédulo o João Pedro perguntou se havia outro jipe na cidade que o pudesse acompanhar ao Congo. Informaram-no então que o padeiro tinha uma carrinha de caixa aberta pelo que correu à padaria a contar o sucedido. O padeiro disponibilizou-se para ajudar, tendo combinado que partiriam de manhã cedo. Antes de se ir deitar ainda telefonou à filha Barbara a dar os parabéns pelo seu aniversário. Conforme combinado, na manhã seguinte partiram. A progressão era mais difícil de carrinha do que de moto. Dentro da cabine o João Pedro e o condutor eram atirados constantemente contra o tecto e contra a porta.
Percorreram toda a pista e não viram ninguém. Ao fim de 7 horas avistaram o rio Lekéti e chegados a N’Gambié encontraram finalmente o Tito que se preparava para avançar para o Gabão com o homem do Togo. Ficaram contentes pois constataram que ambos estavam bem e que nada de mal havia acontecido.

Ultrapassado este momento difícil, ficámos muito sensibilizados com a atitude daqueles homens: numa aldeia recôndita de África, sem quaisquer laços particulares connosco, homens brancos, deram-nos apoio, alimentação, estadia, e tomaram esta posição de força face ao homem do Togo. A despedida foi, por tudo isto, especialmente emotiva.
Passamos para o outro lado do rio sobre uma barcaça, que se movia a partir da tensão de cabos esticados de ambas as margens aproveitando a força do caudal do rio, por isso não necessitando de motor.

Percorremos no jipe os 120 quilómetros deste percurso bastante atribulado. A dificuldade do terreno era imensa, e o jipe nem sempre tinha capacidade para transpor a lama que se amontoava nestes terrenos e muitas vezes tivemos de o empurrar. Evidentemente não havia estrada por isso procurámos trilhos novos para avançar O aquecimento do motor obrigava a parar de vez em quando; era preciso deixa-lo arrefecer, pôr água no radiador e depois tornar a arrancar. Após quase 9 horas de viagem atingimos o nosso objectivo.

—–República do Congo, mais conhecida por Congo-Brazzaville, rico em reservas de petróleo e florestas, usado como depósito de lixo tóxico pelo Ocidente, sofreu uma forte exploração pelas companhias privadas. Quando se construiu a via-férrea de Brazzaville a Ponta Negra, as condições de trabalho foram de tal maneira inumanas que se diz: um morto por cada travessa.
Este país que pensava caminhar para a democracia pacificamente, devido ás lutas pelo poder fomentadas por interesses económicos, está mergulhado num longo e sangrento conflito.

República do Gabão

Capital: Libreville
Moeda: Franco CFA
Língua Oficial: Francês

Sexta-feira, 19 de Setembro

Chegámos finalmente a Leconi, já no Gabão, bastante tarde. O Tito tinha uma grande preocupação: telefonar à filha Mariana que completava 3 anos naquele dia. Certamente envolvida pela festinha de aniversário em Portugal, poderia ouvir as palavras do Pai a mandar beijinhos… Conseguiu, para grande contentamento de ambos.

Após uma noite de sono reparadora e de pagarmos as despesas e os créditos que o João Pedro conseguiu obter, com imensa dificuldade, para resolver as necessidades daqueles dois dias, (quando deixou o Tito na aldeia, não levou consigo nenhum dinheiro), tomamos o caminho para Libreville, capital do Gabão. O de sempre: estradas empapadas, cheias de lama, muita dificuldade em transitar.

Após um grande esforço, mas maravilhados com a cerrada floresta, ainda quase virgem, considerada uma das mais belas do mundo, cuja obscuridade era quase total ,o que nos obrigou a rolar de luzes acesas, chegámos a uma pequena aldeia chamada N’Dingui. Fomos falar com o Chefe, que, como é tradição, nos deve conceder autorização para aí pernoitar. Todavia, o Chefe não podia fazer-nos companhia pois tinham lugar nessa noite os ritos de passagem da infância para a idade adulta, e era realizada a circuncisão. Estes ritos de iniciação, decorrem longe dos olhares e ouvidos profanos.

Pedimos para tomar um banho. Levaram-nos até ao rio. Um rio de cor barrenta das chuvas. Pareceu-nos que se tomássemos banho naquela água, ficaríamos ainda mais sujos do que estávamos! Mas lá nos refrescámos como pudemos. Depois fomos convidados para um passeio pela selva, para verificar se as armadilhas de caça tinham apanhado alguma coisa. Para surpresa nossas tinham apanhado três javalis! Então, deleitámo-nos a comer refogado de javali com mandioca cozida à volta duma fogueira.
A mulher do Chefe tinha-nos preparado um lugar para dormir no chão, mas equipado com um mosquiteiro.

No dia seguinte, continuámos a avançar em direcção à capital por terrenos intransitáveis. Junto à costa, encontrámos uma zona de centenas de metros com estátuas belíssimas. Explicaram-nos que isso decorria do facto de o Gabão ser um grande exportador de madeiras e que os naufrágios dos barcos que as transportam possibilitam que grandes quantidades de toros dêem à costa. O Governo e a Câmara de Libreville permitem que, colocados na vertical, sejam esculpidos pelos artistas locais, transformando aquela avenida frente ao mar, numa área muito agradável.
Comprámos então postais que, mais uma vez, enviámos aos nossos patrocinadores e amigos, transmitindo a ideia de que não esquecíamos aqueles que nos permitiram a realização deste sonho.
Ansiosos por chegar aos Camarões, porque aí tínhamos amigos portugueses à nossa espera: o Nóbrega e a Fadma, sua mulher, passamos por Mitzic, atravessámos a linha do equador, onde nos fotografámos e pela única estrada transitável dirigimo-nos até ao rio Ngoko que faz fronteira com os Camarões.

Estando a terminar a travessia deste país tivemos ainda a oportunidade de, em pensamento, homenagearmos, um famoso filósofo e intelectual, catedrático de teologia, médico e um dos maiores intérpretes de órgão das obras de Bach, que decidiu deixar um mundo que lhe prometia tudo e vir para a selva, até Lambaréné e aí erguer, à força de pulso e vontade, um hospital. Este “ doutor da selva” como era chamado apesar da sua humildade viu reconhecido internacionalmente o seu trabalho e assim Albert Schweitzer, foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz.

Gabão, nome atribuído pelos descobridores portugueses que em 1484, ali chegados, acharam que o profundo estuário do rio Komo era parecido com um capote alentejano com capuz.
Este país, o mais ocidentalizado dos países da África ocidental, embora muito dependente da riqueza do petróleo procura desenvolver outras alternativas como, por exemplo, a exploração da sua imensa floresta.

República dos Camarões

Capital: Yaoundé
Moeda: Franco CFA
Línguas Oficiais: Francês e Inglês

Quarta-feira, 24 de Setembro

Entrámos nos Camarões e após termos percorrido 40 a 50 quilómetros em boas estradas alcatroadas, encontrámos o Nóbrega e a Fadma que nos receberam de braços abertos!
O Nóbrega é um experiente motard pertencente, como nós, ao Moto Clube do Porto. Está a trabalhar e a viver nos Camarões como responsável pelas maiores moagens do país. Já realizou grandes viagens de mota; numa delas, a Marrocos, conheceu a sua mulher.

Soubemos que em Yaoundé, capital dos Camarões, havia um moto clube que nos esperava com uma festa. O Tito, demasiado cansado, foi dormir. O João Pedro acompanhou o Presidente do Fun Motoclube de Yaoundé e deu entrevistas contando episódios desta fantástica aventura que estavam a viver.

Ao longo dos seis dias que estivemos nos Camarões, a Fatma e o Nóbrega mostraram-nos as redondezas. Visitámos o famoso Monte Camarões, com 4.000 metros de altitude, vulcão adormecido perto de Douala, onde desagua o rio Sanagua.

Um dos membros do moto clube, que era deputado nacional, ofereceu-nos um jantar de honra em sua casa. Dirigíamo-nos a ele como Monsieur le Député. Foram apresentados pequenos filmes que mostravam a preparação dos alimentos, nomeadamente a preparação da jibóia: como tirar-lhe a pele, cozê-la, etc. Era o que ia ser servido: jibóia e larvas preparadas à “nossa” moda. Trocando olhares cúmplices, engolimos em seco e saboreamos as dificuldades deste momento em silenciosa agonia…
Mas, de facto, a jibóia foi um delicioso pitéu, que três vezes encheu os pratos. Deixa uma parecença com o coelho…, parecendo as pequenas vértebras como os ossitos do coelho. As larvas eram mais apetitosas do que as que tínhamos comido em Angola. Estávamos tão absorvidos que nem reparámos que só nós, os portugueses, é que estávamos a comer jibóia. Ainda pusemos a hipótese de nos estarem a pregar uma partida e de nos estarem a dar algo que não se comia… Mas não. Era uma questão de honrar os convidados: só se serviam depois de os convidados estarem satisfeitos e não quererem mais. Cumpriu-se a tradição local. E, conforme nos explicou a dona da casa, com a especial deferência de servir jibóia, a ilustres convidados estrangeiros.
Após o jantar, Monsieur le Député levou-nos a assistir a um espectáculo de música. A certo momento, somos obsequiados pelo chefe de orquestra com uma música dedicada aos visitantes que começava com o verso Les Portuguais.

Ficámos mais um dia em casa do Nóbrega. Com nova energia, partimos para a fronteira da Nigéria escoltados pelos nossos amigos do Moto clube de Yaoundé.

No passado, as tribos locais reuniam-se à volta de grandes Chefes (os fon). A caminho de Bamenda e a cerca de 20 km de Bafoussam, em Bandjoul no maciço de Adamaoua, fomos visitar, com os nossos amigos camaroneses, a mais importante e maior das 80 Chefaturas da etnia Bamileque. Uma Chefatura era uma espécie de castelo, residência de um grande Chefe, que dominava um território na qual se espalhavam diversas aldeias (as tandio). A magnificência, a riqueza e a rara beleza destes locais deixou-nos estupefactos. A cubata do Fon, construída no século XVIII com cerca de 20 metros de altura, exibia uma opulência e uma força incríveis. Todas as Chefaturas foram destruídas pelo colonizador europeu, arrasando igualmente a cultura e independência destas tribos.

Com os motards nossos amigos foi-nos possível conhecer alguns pontos de rara beleza, só acessíveis a quem conhece bem os cantos à casa. Foi o caso de umas quedas de água maravilhosas, que, certamente, nunca foram visitadas pelos turistas, até porque o turismo, não é nos Camarões uma actividade intensa… Os Camarões têm uma zona francófona, mais displicente e menos organizada, e uma zona anglófona, mais limpa e bem organizada, que é uma característica rara, nestes países.
Depois de Bamenda, vivemos momentos de grande aventura quando seguimos para a fronteira da Nigéria.
AS condições das estradas eram cada vez piores e era vulgar, nos 30 a 40 quilómetros até à Nigéria, encontrar camiões completamente atolados, enterrados na lama, provocando filas e filas de carros e camiões. Só com a ajuda das populações, era possível atravessar este mar de lama. Este pesadelo era contornado por vezes por caminhos alternativos, já que, naquilo que era considerado a estrada, era impossível transitar.
Num desses caminhos tivemos oportunidade de comer numa pequena aldeia, com meia dúzia de pessoas que viviam positivamente na Idade da Pedra. Ofereceram-nos uma sopa e ficámos um bocado a aquecer e a recuperar forças, junto ao fogo, onde se cozinhava em cima de grandes pedras.

Finalmente, após uma difícil progressão que nos é impossível descrever, onde encontrámos camiões soterrados até à caixa de carga outros com os seus velhos pneus furados, somos informados de que estamos numa zona de construção da Transafricana, que no futuro deverá permitir a ligação entre o Sul e o Norte de África.

Em toda a África fomos reparando que apesar da pobreza generalizada, ou por isso mesmo, tudo é aproveitável. Encontrámos um aparelho para mudança de pneus que, construído com os recursos escassos e materiais reaproveitados, combinavam um engenho e uma criatividade que só a necessidade (tão grande) permite construir.

Ao cair da noite decidimos ficar em Eyamojoek, a 20 ou 30 quilómetros da fronteira. Arranjaram-nos um pão, uma laranjada e sardinhas de conserva, único alimento à venda. Nem pensámos em preocupar-nos com as datas de validade…a fome era grande.
Depois veio a Polícia, apresentámo-nos, e tentámos tirar informações sobre a progressão até à Nigéria. Ficámos a saber que iria ser muito difícil lá chegar com as nossas motos, já que só com alguns veículos de tracção às quatro rodas era possível fazer alguns itinerários alternativos. Estando a prever-se chuva durante a noite, as condições ainda iriam piorar. Face a isto, fomos dormir numa pensão miserável, onde tomámos uma espécie de banho com um balde, em condições deploráveis. A meio da noite, caiu uma enorme tempestade com relâmpagos e chuva torrencial, que constantemente faziam a luz ir abaixo, pelo que tivemos que nos socorrer de uns candeeiros a petróleo.

De madrugada, quando nos preparávamos para arrancar, um habitante que tinha um 4×4 veio ter connosco e ofereceu-se para nos acompanhar mediante o pagamento de uma certa quantia. Aceitámos, e fomos constatando que, de facto, teria sido impossível passar por alguns locais sem a sua ajuda. Atravessámos grandes extensões de água e também quilómetros de lama, conforme a permeabilidade do terreno. A cerca de 5 quilómetros da fronteira, deixámos de ter dificuldades, mas o nosso amigo da 4×4 quis continuar a rolar na nossa companhia.

É de realçar que ao longo de todo este país vimos cartazes, não só no âmbito da prevenção, mas também de apoio ao combate à SIDA, numa tentativa de combate a esta doença, flagelo, que em permanente crescimento, está a aniquilar uma enorme percentagem, da população do continente africano.

—–Camarões, nome dado pelos portugueses em 1472, quando navegando nesta parte da costa de África tendo falta de água doce, procuravam uma entrada para se reabastecer; até que alguém, que caiu à água, constatou que ela era doce. Estava descoberta uma entrada. O rio Sanaga, pelo volume de água que desloca, torna doce a água do mar numa distância de mais de 5 quilómetros. Os navios entraram pelo rio e encontraram uma enorme abundância deste crustáceo e assim baptizaram o local com o seu nome.
Este país, onde se tocam as Africas central e ocidental, encruzilhada de povos, tem tudo, em termos de natureza, que existe, a norte do equador: savana, florestas quase impenetráveis, altiplanos e o Sahel.

República Federal da Nigéria

Capital: Abuja
Moeda: Naira
Língua Oficial: Inglês

Domingo, 28 de Setembro.

Após duas horas de trâmites aduaneiros, começámos o nosso percurso na Nigéria. Pretendíamos que fosse muito rápido porque os relatos que tínhamos falavam -nos dele em termos pouco simpáticos… Era o país em África que mais dinheiro extorquia, quer por parte da Polícia, quer dos Militares, e onde as condições de segurança eram mínimas.

Queríamos chegar rapidamente àquilo a que eles chamam “auto-estrada”, para tentar atravessar o mais rapidamente a Nigéria e chegar ao Benin. Os primeiros quilómetros foram sem sobressaltos. Embora as estradas não apresentassem grandes condições, eram muito melhores do que os últimos quilómetros nos Camarões, que estavam bem frescos na nossa memória.
Finalmente, um local de venda de frutas na berma da estrada foi o que a sorte nos fez encontrar, após dois dias a comer sardinhas de conserva. E aí, cada qual se deliciou a abrir o seu ananás, com um canivete suíço e a comê-lo com avidez. Tinham um sabor inesquecível, não sabemos se pela qualidade, se pela fome que trazíamos.

Chegámos pouco depois à auto-estrada da Nigéria que apresenta algumas características muito interessantes. Por exemplo, permite a circulação em ambas as vias, em ambos os sentidos. Depois, quando havia desastres, a forma de os sinalizar eram uns torrões de erva dispostos no espaço de 50 metros antes do local do acidente. Por outro lado, o triângulo de pré-sinalização, mesmo quando existia, não substituía os montes de terra e ervas tradicionais. Não é por acaso que este país tem uma das mais altas taxas de acidentes de viação do mundo.

Esta auto-estrada era interrompida por troços em péssimas condições, onde apareciam militares que pediam Money for cigarrettes. Resolvemos, então, comprar um volume de tabaco pensando que podíamos poupar algum dinheiro; ficámos estupefactos quando logo no primeiro posto, os militares que nos obrigaram a parar e a quem oferecemos um maço de cigarros, aceitaram sorridentes a oferta com uma mão e com a outra estendida tornaram a pedir Money for cigarrettes.
O desagradável nestas situações, não era sentir que estávamos a ser espoliados sem razão aparente… era sentir que os guardas apontavam as armas às nossas barrigas e, se lhes dizíamos, em inglês, para apontar a arma para o chão, sorriam e continuavam a apontar às nossas barrigas.
A facilidade com que se mata por estes sítios… Soubemos, por exemplo, que um grupo de militares tinha chacinado um padre para lhe roubar dinheiro. Quando uma nova patrulha nos mandava parar, sabíamos que íamos ter as armas apontadas. Ora, como podem imaginar, os nossos sentimentos não eram os melhores.
Também começámos a estranhar que, só próximo de localidades, houvesse troços de estrada em péssimas condições e vias alternativas criados pelos populares para possibilitar a passagem dos veículos. Exigiam dinheiro pela passagem, quase que o pagamento de uma portagem. Percebemos, então, que eram as próprias populações locais que destruíam a estrada e faziam as passagens alternativas para ganhar algum dinheiro. Mas, de facto, na via principal, alguns dos buracos eram muito fundos e não permitiam a passagem a nenhum tipo de veículo.

Apesar da Nigéria ser o quarto produtor mundial da OPEP, tivemos falta de gasolina! Em muitos postos por onde passávamos, tínhamos dificuldade em abastecer, com longas filas de carros e camiões. Soubemos depois que a Nigéria não tem refinarias capazes, vende o petróleo em bruto e depois importa o combustível. Quando há falta de divisas, este quarto produtor mundial de petróleo não tem gasolina para si próprio. Ela atinge um preço exorbitante, por isso a população vai roubá-la aos oleodutos, o que provoca por vezes acidentes graves. Por sermos estrangeiros, e ao verem as nossas motas, as pessoas que faziam fila nos postos, geralmente mandavam-nos avançar e o chefe do posto arranjava 20 ou 30 litros para podermos prosseguir o nosso caminho.

O João Pedro arranjou um meio para não pagarmos mais Money for cigarrettes. Numa pequena vila, ao atravessar um estreito carreiro alternativo à estrada destruída, foi abordado por um militar de boina preta que tinha perdido o autocarro semanal e precisava de boleia. Decidimos levar a carga do João Pedro na mota do Tito e ele dava boleia ao militar. Foi a grande solução! Quando nos aproximávamos de um posto de controlo ou da polícia, o sujeito dizia umas palavras e nunca mais foi preciso dar Money for cigarretes. O militar disse-nos que era da secreta…
Tentámos ficar a dormir num hotel, em Enugu, que o militar nos indicou. Quando solicitámos um quarto para os dois, disseram-nos que era proibido, que não podiam dormir dois homens no mesmo quarto. Era contra os princípios muçulmanos. Perante tal situação, e porque pagar um quarto para cada um já era muito dinheiro, fomos procurar outro hotel, onde acabámos por pernoitar.
Na manhã seguinte seguimos viagem e à medida que nos aproximávamos da fronteira com o Benin, a nossa situação ia-se tornando dramática por falta de combustível. Tivemos que reduzir a nossa velocidade drasticamente pois não conseguíamos encontrar bombas de gasolina para reabastecer. Encontrámos um polícia que nos mandou parar. O Tito disse-lhe adeus e seguiu viagem muito lentamente e o João Pedro parou.
Mais tarde, quando voltaram a encontrar-se já na fronteira o João Pedro, disse ao Tito:
- “É pá, tiveste uma sorte, o tipo queria dar-te um tiro! Fez-te sinal para parar e tu disseste-lhe adeus! Eu lá estive a explicar que estavas à rasca, sem gasolina, cansado, que com certeza não percebeste que ele queria que parasses. Estava furioso”.

—–Nigéria, o gigante de África, o país mais populoso deste continente, está profundamente dividido, com um Norte muçulmano e um Sul animista e cristão, sendo palco de frequentes motins, que causam sempre centenas de vítimas.
Este país, onde no tempo da colonização foi aplicada a fórmula de deixar os poderes tradicionais governarem, viu endurecer a luta pelo poder, devido à sua riqueza em petróleo, generalizando-se a corrupção e desvalorizando-se o enorme potencial da sua agricultura. Homenageámos o escritor da etnia ogoni Ken Saro Wiwa, que por ter tido a coragem de denunciar o saque a que está sujeita a economia nacional pelos militares, foi liminarmente executado.

República do Benin

Capital: Porto-Novo
Moeda: Franco CFA
Língua Oficial: Francês

Terça-feira, 30 de Setembro.

Na entrada da fronteira do Benin, cambiámos algum dinheiro. As notas eram tantas que tivemos que forrar os nossos fatos por dentro para as guardar! Quando tratávamos dos documentos, um jornalista da Nigéria e outro do Benin dirigiram-se ao João Pedro, que aproveitou para dar umas entrevistas, contando o propósito da nossa viagem.
As pessoas à volta das motas eram às dezenas, a quererem tocar nas malas, nos pneus, no volante…

O Benin situa-se no antigo reino de Daomé e conforme descrito por historiadores e exploradores, era um reino imenso, poderoso e rico. Quando viajávamos a caminho da capital deste reino, passamos por Ganvié, conhecida como Veneza africana, a maior cidade lacustre de África, construída com cubatas de bambu, no lago Nokoué. Conta a história que a tribo pacífica dos tofinu, na fuga ás tribos guerreiras do norte, chegou ás margens de um grande lago. A religião dos reinos de Daomé proibia os seus guerreiros de entrar na água. Assim os tofinu mesmo não sabendo o que os esperava, preferiram avançar para o interior do lago. A perseguição tinha acabado e tinha começado a história do povo que aprendeu a viver sobre as águas.

Percorremos cerca de 15 km e chegámos a Cotonou, cidade cujo porto, pela sua importância a coloca como o centro económico do país. Depois de termos jantado num maquis (restaurante) e comido algumas iguarias locais tal como agutis (roedores de coqueiros) e gari (mandioca raspada), fomos passear um pouco antes de nos deitarmos.

No dia seguinte dirigimo-nos para Abomey, capital do antigo reino de Daomé, e pelo caminho constatámos a diferença quanto à natureza que nos ia rodeando: deixamos de ter as florestas luxuriantes para passar a ter mais savana
Fomos visitar o palácio real não nos sendo, infelizmente, permitido tirar fotografias. Contaram-nos que as mulheres de então para ascenderem à categoria de guerreiras, tinham que cortar os seios e que regressar das batalhas com duas cabeças do inimigo, pois a não a ser assim, seguramente que uma das cabeças seria a delas…
Avaliem a ferocidade destas guerreiras quando atacavam…

Num dado momento, estávamos parados para o João Pedro dar uma cigarrada, preocupados outra vez com a escassez de combustível, e ele perguntou ao Tito se não tinha reparado nos camiões da Mota & Cª ao que ele respondeu, não. No entanto, alguns quilómetros à frente, encontrámos um estaleiro da empresa.
Evidentemente que nos dirigimos para lá. Fomos recebidos em grande festa pelos nossos conterrâneos, que nos deram aquele abraço! Ficaram estupefactos com estes aventureiros do Porto que estavam a atravessar toda a África. Resolveu-se logo o problema da gasolina e de um parafuso moído, que logo foi arranjado. Era uma oficina bem apetrechada, onde se reparava todo o tipo de maquinaria. Tomámos um café bem tirado e passámos uns momentos agradáveis com estes portugueses. E pronto, saltámos para cima das motas atestadas com gasolina, com cafés saborosos no estômago, partimos para Parakou, onde dormimos. No dia seguinte seguimos estrada a caminho da cordilheira de Atakora, para atravessar o rio Pendjari, já na fronteira.

—–Benin, antiga costa dos escravos, é ponto de encontro de culturas e civilizações. Aqui os portugueses, quando regressavam à sua terra, deixavam as especiarias e uma enorme quantidade de nomes.
Este país, pioneiro do multipartidarismo em África, onde pela primeira vez um dirigente africano em regime de partido único entregou pacificamente o poder, o general Keruku.

Burkina Faso

Capital: Ouagdougou
Moeda: Franco CFA
Língua Oficial: Francês

Quinta-feira, 2 de Outubro.

Entrámos no Burkina Fasso, antigo Alto-Volta e começamos a notar uma quase total ausência de vegetação, estávamos a aproximarmo-nos da zona de Sahel. O nosso objectivo era chegar à capital Ouagadougou, famosa pela sua enorme actividade artística, nomeadamente o festival pan-africano de cinema. Depois de mais uma vez termos comprado os postais, para enviar aos nossos amigos, fizemos uma visita aos seus enormes mercados. Observámos diversos veículos com autocolantes de Bin Laden . Sem problema nenhum, o condutor de uma lambreta deixou-se fotografar. Consideram Bin Laden um herói, porque combate os americanos; que por estas bandas, não são muito bem vistos.

Seguimos para Bobodioulasso, internacionalmente conhecida porque por lá passa o Paris Dakar e por causa da sua famosa mesquita do século XV.
A estrada que ligava estas duas cidades era razoável, uma das poucas estradas que estava em boas condições. Neste percurso, atravessando um imenso planalto, num solo visivelmente pobre, em que pela primeira vez vimos camelos a serem utilizados na agricultura, puxando arados, constatámos a grande utilização de bicicletas como meio de transporte. Foi-nos explicado que o combustível é muito caro e por isso não acessível à grande maioria da população. Passamos por Sabou onde se situa um enorme charco conhecido como o lago dos crocodilos sagrados, infelizmente não tivemos a oportunidade de ver nenhum.
Na mesquita de Bobodioulasso fomos rodeados por imensas pessoas que queriam tirar fotografias connosco e ver as motos.
Depois de visitarmos a mesquita, partimos a caminho da fronteira, querendo antes observar as quedas de água de Banfora.

Ao longo do nosso trajecto, constatámos que a destruição das florestas para a produção de carvão começa a criar problemas do ponto de vista ambiental.

Desde a nossa partida que vínhamos fazendo reportagens para a TSF. Nem sempre foi possível estabelecer o contacto, porque o nosso telemóvel não funcionava em determinadas zonas.
Numa das ligações, sem nenhuma razão aparente, sem o mínimo de consideração por quem está a milhares de quilómetros de distância, sem respeito pelos compromissos assumidos connosco e com os patrocinadores, a nova direcção da TSF, que acabava de tomar posse, decidiu cortar com as reportagens que fazíamos. A primeira desculpa foi a reformulação da grelha. A segunda, completamente descabida, foi que os ouvintes da TSF estavam habituados a reportagens diárias e nós não garantíamos regularidade no contacto; por isso, não estávamos a seguir a linha editorial da TSF.
O Tito ficou estupefacto perante isto… Foram dizendo que quando chegássemos teríamos oportunidade de fazer uma reportagem alargada para contar a aventura… Como devem calcular, tal não aconteceu.

Já perto da fronteira, em Zorgo, o lugar onde pernoitámos era medonho, pelo que dormimos com grande dificuldade. O ar condicionado era especial: umas aberturas nas portas e janelas por onde passava o ar quente da noite e uma grande quantidade de mosquitos! Descobrimos de manhã, ao acordarmos, que a limpeza era feita por… abutres. Comiam lixo e restos de comida.

—–Burkina Fasso, terra onde se enaltece a arte da coabitação, sendo esta uma componente mítica do país, inscrita em várias lendas, nomeadamente a que se refere ao nascimento do primeiro reino.
Este país pobre, de localização geográfica interior, dependente das remessas de imigrantes. Conhecido como o -dos homens íntegros – verdadeiro mosaico étnico, enfrenta o perigo, face ao evidente crescimento da força do islamismo, de perder a sua estabilidade e coexistência, fonte da sua riqueza cultural.

República do Mali

Capital: Bamako
Moeda: Franco CFA
Língua Oficial: Francês

Sábado, 4 de Outubro.

Com temperaturas quase insuportáveis, debaixo de um calor tórrido, entrámos no Mali, por Sikasso dirigindo-nos para a capital Bamako. Procurámos uma sombra para nos refugiarmos uma tarde inteira deste calor sufocante e fomo-nos apercebendo que estávamos a atravessar a savana, aproximando-nos do deserto.
A capital do Mali é banhada pelo rio Níger. Quem a atravessa de sul para norte tem uma vista fantástica da margem oposta. Aqui fomos surpreendidos por enormes pinturas murais. Uma delas retratava aquela criança, que protegida pelo pai, foi depois assassinada de uma forma bárbara pelos Israelitas.
Nunca sentimos qualquer hostilidade da parte das populações, embora a capital seja quase insuportável com a quantidade de pessoas, a poluição do ar e sonora, o pó e a confusão. Era domingo quando a atravessámos demorando cerca de 4 horas. O calor era insuportável e deixava-nos completamente molhados. As pessoas, principalmente crianças passavam à nossa frente sem o mínimo de atenção pregando-nos alguns sustos. É bem verdade quando se diz que na África a cidade está na rua. Exaustos, decidimos ficar a dormir em Kouchala. Seguimos depois em direcção a Didjeni, por uma estrada, quase pista, muito arenosa, onde chegámos ao fim da tarde. Como não havia nenhuma pensão ou hotel para pernoitar, fomos avisados para ficar, em casa do chefe da polícia pois seria o único local seguro.
Aí fomos então e encontrámos o filho do chefe da polícia, que, muito gentilmente, nos cedeu a casa contígua à de seu pai, para dormirmos. Era tão horrível, que resolvemos pegar nas camas e dormir cá fora, de modo a melhorar as condições de higiene. Enquanto o João Pedro ficou a falar com o nosso anfitrião o jovem Ali, sobre a cultura portuguesa e a do Mali, ficando a saber das dificuldades que os estudantes tinham em ir para a universidade, que era na capital, o Tito foi com uns jovens procurar alguns alimentos passando por locais com carne dependurada ao ar livre.

Nessa zona não havia electricidade, a luz era só a dos fogos das braiseries. Comprou para todos algumas bebidas e carne assada, por acaso duríssima.
À noite veio uma forte tempestade tropical tivemos que voltar a pegar nas camas e irmos para dentro da casa!
No dia seguinte, encontraríamos um lugar para dormir que fez este parecer, um verdadeiro hotel.

Depois de uma noite um pouco turbulenta, avançámos por péssimas estradas, para Nioro do Sahel, onde aproveitámos para atestar os depósitos.
A paisagem de savana continua a ser dominante, com grandes rebanhos de cabras a marcar a vertente pastorícia da região. Muitas zonas estavam alagadas pelas chuvas. Cruzámos uma ponte que estava submersa. Como não víamos o piso, não sabíamos se tinha buracos ou não, embora os populares nos dissessem que podíamos atravessar e que não era muito alta. Assim, com a água a chegar a meio das nossas rodas, lá passámos. Era maior a insegurança, do que a dificuldade.

Em Nioro do Sahel indicaram-nos um campement único local para podermos pernoitar. Era um antigo aquartelamento da Legião Francesa no Mali com condições muito más. Durante a noite apareceram-nos no quarto, dezenas de sapos a coaxar, que saltavam para cima das nossas camas. Este “Hotel” tinha as camas todas partidas mas a casa de banho, apesar do aspecto desagradável tinha água.
Indicaram-nos uma braiserie, onde tentamos comer massa e carne, de pé, pois a mesa estava assustadoramente suja. Á nossa volta a pobreza era tanta que tivemos que partilhar a refeição com aquelas pessoas. Fitavam-nos com um ar esfomeado que nos deixava incomodados.

Partimos de Nioro do Sahel em direcção à fronteira da Mauritânia. Para aí chegar foi um terror. A chuva torrencial que tinha caído durante a noite, transformando a terra em lama fazia com que as motas ficassem completamente enterradas na pista. Para prosseguir, vivemos momentos verdadeiramente dramáticos. Estávamos especialmente debilitados devido à exaustão física acumulada e à desidratação provocada pelo clima.

—-Mali, entre o deserto e a savana, a floresta e o imenso rio Nigér, é um ponto de encontro de civilizações.
Este país, muito pobre, apelidado das cidades de terra, com um povo que condena socialmente as exibições de riqueza e onde é rara a ostentação pública, liga o mundo dos negros sedentários ao dos brancos nómadas.

República Islàmica da Mauritània

Capital: Nouakchott
Moeda: Ouguiya
Língua Oficial: Francês

Terça-feira, 7 de Outubro.

Entrarmos na Mauritânia, e ainda tivemos de percorrer, durante 3 horas, cerca de 20 quilómetros de areia mole até chegarmos, no final do dia, ao controlo de fronteira em Aioun-el-Atrouss.
Encontrámos um óptimo parque de campismo, com quartos excelentes e até ar condicionado. Era um parque novo, gerido por jovens. Pudemos tomar um banho, que nos soube maravilhosamente! Entretanto serviram-nos um excelente jantar. De facto, retemperámos algumas forças aqui. Perguntaram-nos se não queríamos dormir nas tendas, informando-nos que de noite era agradável lá ficar, pois as partes laterais levantadas para permitir um arejamento e arrefecimento. Mas nós preferimos aproveitar o ar condicionado do nosso “luxuoso” quarto!

Depois de dormir arrancámos com o objectivo de chegar a Nouakchott, capital da Mauritânia. A estrada em alcatrão era rápida, apesar do elevado calor. Encontrámos muitos camiões parados, em posição lateral; os motoristas deitavam-se à sombra, debaixo dos camiões, a aproveitarem o arejamento do vento.
A sede leva-nos a parar para procurar água. Comprámos pequenos sacos de água congelada, vendidos como um bem precioso que as pessoas vão chupando pelo caminho.
Muitos quilómetros depois e já de noite, chegamos a Aleg. Gastámos cerca de meia hora para arranjar duas maçãs, uma lata de sardinhas de conserva e uns pães muito toscos! O local que encontrámos para dormir tinha ar condicionado e quarto de banho privativo o que aparentemente era bastante bom. No entanto ao irmos tomar banho deparámos, no chão e nas paredes, com um grande número de enormes baratas. Não era por acaso que lá estava uma vassoura de verga. Compreendemos que servia para as enxotar e varrer para o ralo da água.

Chegámos a Nouakchott, cidade surgida das areias, criada do nada em 1957, onde já tínhamos passado na nossa viagem anterior do Porto a Bissau e fomos dormir ao pequeno hotel Petit Paris, já nosso conhecido.
Posteriormente andamos num táxi, sem cor, sem tablier, sem vidros, um monte de chapas a rolar…, até a marca era difícil reconhecer.
Aconteceu-nos então algo verdadeiramente curioso. O Tito olha para o lado e cruza olhares com uma pessoa que pareceu reconhecer. Quem era? Abdellahi!
Alguém que 8.000 quilómetros antes, nos tinha emprestado o telemóvel satélite para contactarmos com a família, e dizer que estávamos vivos. Tínhamo-lo encontrado em Maquela do Zombo quando já estávamos há quatro dias perdidos e sem darmos notícias. Reencontrámo-lo por mero acaso: ele nem ia passar por ali, mas foi, à procura da farmácia. E nós andávamos a ver o artesanato… Conforme dizia o Abdellahi: “Porque Alá assim o quis”.
Convidou-nos para sua casa, para conhecer a mulher e o filho, ofereceu-nos chá e, mais do que isso, concedeu-nos a honra de comer camelo connosco.
O camelo é um animal muito importante para os homens do deserto, dá o transporte, o alimento, o leite e a pele. Abdellahi, sempre que vinha ao seu país, no intervalo das missões que desempenhava para as Nações Unidas, dizia que tinha que passar uma semana sozinho com os seus camelos no deserto.
Comemos camelo assado acompanhado de cuscuz. Simpaticamente puseram-nos umas colheres, que dispensámos; comemos, como eles, com a mão. De vez em quando, levantava-se e ia rezar, deixando-nos sozinhos. Mesmo ao lado, havia uma mesquita. É extraordinário encontrar um responsável das Nações Unidas, engenheiro de formação, de cultura completamente ocidentalizada, habituado a usar fato e gravata, vestido à mauritano, transformado e mantendo as tradições do seu país.
Quando nos apresentou a mulher, o Tito estendeu-lhe a mão para a cumprimentar. Abdellahi esclarece: on touche pas aux femmes (não se toca nas mulheres).

Preparamo-nos para partir para Atar. Uma longa estirada de 400 quilómetros que começámos a fazer de manhã cedo para aproveitar o fresco. Chegámos pelas 16h e 30. Mas o nosso objectivo era Choum, para encontrar um comboio que liga as minas de Zouérat a Nouâdhibou. Calculámos que poderíamos fazer os 120 quilómetros que faltavam ainda de dia; só quando deparámos com um percurso muito lento e de muita areia é que percebemos o nosso erro de avaliação.
Depois de 90 quilómetros, e já perto de Choum, a noite caiu de repente. E, sem termos meios de orientação, sem ver a pista, tivemos que parar e ficar a dormir no deserto. Nessa altura levantou-se uma tempestade de areia. Fomos obrigados a deitar as motas, de modo a criar com as malas em cunha uma barreira para nos protegermos do impacto das areias.
Em pouco tempo vimos a areia submergir parte deste conjunto de motas, malas e os nossos corpos. Mas a fadiga era tanta que, após enviarmos uma mensagem via satélite com as nossas coordenadas, para que, no caso de não darmos notícias nas próximas 24 horas, a nossa família em Portugal dar o alarme e lançar as buscas; adormecemos dentro de uma nuvem de areia com capacetes e óculos! Só pelas 5 horas da manhã é que tivemos condições para sairmos do nosso abrigo. Foi uma noite quase sem dormir.
Com a nossa experiência não é admissível, ficarmos nesta situação face ao gigantesco deserto do Sahara, o maior do mundo, onde caem cerca de 100milimetros de precipitação por ano.

Com a luz do sol a nascer, constatámos que, além de não termos água, também não víamos a pista, porque a tempestade de areia a tinha feito desaparecer. Devido à neblina, à reflexão na areia, à luminosidade incandescente, não percebíamos bem de que lado estava o sol a nascer. E por isso, não conseguíamos orientar-nos quanto aos pontos cardeais. Só sabíamos que tínhamos que seguir para Norte… Mas onde era o norte?
Até que o Tito se lembrou que tinha uma pequena bússola no canivete suíço e lá encontrámos o Norte!
Retomamos a marcha. Cerca de uma hora depois, encontrámos um pastor de camelos que embora não tendo água nos deu a boa notícia de que já só estávamos a cinco quilómetros da vila o que nos deixou aliviados. Deu-nos algum alento ver que havia luzes muito longe. Quando nos aproximámos, encontrámos um acampamento de uma família que nos deu água; em troca, deixámos muitas das nossas roupas.
Choum é um povoado muito pequeno, com uma dúzia de casas. Dirigimo-nos à polícia de fronteira que nos disse que o comboio que passaria naquele dia só transportaria minério, não fazendo o transporte de pessoas. Porém com sorte, aquele poderia trazer um flat, vagão baixo, sem cabine e sem laterais, onde eventualmente poderíamos meter as motas e seguir até Nouâdhibou. Como o comboio só chegaria ao final da tarde e nós tínhamos chegado cerca das oito da manhã, fomos falar com o chefe da estação para confirmar a informação e a resposta foi um “nim”. Ficámos na mesma…
Ao final do dia, no local de embarque começaram-se a juntar-se bastantes pessoas. A dimensão deste comboio de minério é algo de espectacular: tem cerca de dois quilómetros de comprimento de vagões, puxados por 3 locomotivas na frente e duas na retaguarda. Os vagões de transporte têm mais de quatro metros de altura. Em conclusão um comboio infernal com dois quilómetros de vagões de minério!
Efectivamente o comboio trazia o vagão flat, só que já vinha completamente cheio com pessoas e os seus haveres, desde as minas. Conseguimos, com muita dificuldade, colocar uma das motas no flat e outra num dos vagões de minério.
Foi uma viagem de 12 horas, até Nouâdhibou. De loucos! À sua passagem, este comboio gigantesco deixa um barulho infernal, uma nuvem de poeira, uma vibração telúrica. Havia ainda uma ondulação dos carris e dos vagões que provocava algum respeito… Uma espécie de linha-férrea flutuante na areia, que fazia com que o comboio pudesse tombar facilmente para o lado, o que era também potenciado pela sua altura.
Já nos tinham avisado que por vezes, estes comboios descarrilam. Comprovámos a veracidade da informação quando passámos por uma enorme quantidade de vagões caídos na areia. Então, mantivemo-nos em alerta a noite toda. Embora sem termos de pagar, esta viagem não foi propriamente um passeio.
Tínhamos comprado alechs, panos azuis com quatro metros, que os Tuaregues – os homens sem fronteiras ( Kel talachaq), como eles orgulhosamente se intitulam – usam como turbante e véu. Embrulhámo-nos, com eles, como múmias para tentar resistir ao frio. Vestimos todas as camisolas que tínhamos e os casacos. A cabeça era protegida pelo capacete; só ficavam a faltar os pés, que, apesar das botas, gelavam. Um pouco “à má fila”, Tito começou a meter os pés debaixo do cobertor do vizinho.
A carga do flat era composta por cabras, ovelhas e pessoas de todas as idades; alguns bebés que choraram toda a noite, mulheres grávidas e felizmente, jovens que mais tarde nos ajudaram a descer a mota do vagão.
À chegada a Nouâdhibou, a mota do Tito e todo o material que transportávamos foram descarregados. Só faltava a mota do João Pedro que estava em cima do minério de ferro, a cerca de quatro metros do solo. Repentinamente o comboio retomou a sua marcha, levando o João Pedro e a sua moto. Perante a admiração do Tito, os jovens informaram-no que o comboio iria parar na fábrica, a cerca de 10 quilómetros dali, onde é descarregado todo o minério.
O Tito lá conseguiu arranjar um táxi, onde meteu todo o material e seguiu-o até à fábrica. Quando encontrou o João Pedro, este discutia o preço a pagar para que a sua mota fosse descarregada.
Depois de termos chegado a um valor, que nos pareceu exagerado, o responsável das oficinas mandou avançar para dentro da fábrica a locomotiva que rebocava o vagão onde estava a mota. Então com umas grandes correntes dependuradas do tecto, içaram a mota. A locomotiva e o vagão saíram e aquela foi finalmente descida para o chão.

Estávamos com as caras completamente pretas como mineiros. Regressámos a Nouâdhibou para descansar um pouco pois a noite tinha sido extenuante e tentar obter informações sobre a pista no deserto, já que da última vez que aqui passámos fizemos este percurso com guias locais
Mais uma vez tivemos sorte, um mauritano que conhecemos disse-nos que por volta do meio da tarde iria de viagem até Marrocos e se quiséssemos podíamos ir atrás dele, pois ele conhecia bem a pista.

A caminho do Sahara Ocidental atravessámos cerca de 50 quilómetros de deserto seguindo o jipe que nos levaria até à fronteira. Estes poucos quilómetros pareceram-nos demorar uma eternidade. A pista, uma mistura de pedra e de areia mole, levou-nos a atascar frequentemente, mas a entre ajuda no deserto não é palavra vã e por mais do que uma vez fomos auxiliados.
Verificamos então que provavelmente estas dificuldades estão a acabar pois é previsível que no próximo ano já esteja terminada a estrada que liga Nouâdhibou na Mauritânia a Bir Gandús, no Sahara Ocidental.

—–Mauritânia, onde o vento modela e remodela constantemente as imensas dunas, onde os homens do deserto têm medo do mar e do seu som, território de extrema aridez cuja única terra fértil é drenada pelo rio Senegal, espera quase tudo das suas riquezas minerais e das suas águas ricas em peixe.
Este país, aparentemente uma democracia, vive uma constante tensão étnica devido à opressão, por vezes escravatura, dos negros pelos mouros, que controlam a vida política.

Sahara Ocidental

Capital: El Aaíun
Moeda: Dirham
Língua Oficial: Árabe e Castelhano

Sábado, 11 de Outubro.

O posto fronteiriço e policial anteriormente instalado em tendas montadas na ocasião encontra-se agora sedeado num edifício permanente.
Já no asfalto fomos recebidos por uma pequena tempestade de areia, trazida pelo vento Harmattan do deserto de Sahara, que nos reduziu drasticamente a visibilidade, impedindo-nos de circular e obrigou-nos a procurar abrigo junto aos Berberes e às suas cáfilas de dromedários. Estes animais, graças às gorduras armazenadas na sua bossa e ás suas úngulas, pálpebras e nariz que lhes permitem sobreviver num mundo de aridez e de areia, mantinham-se indiferentes e pareciam nem notar o vento e o calor. Os Berberes, simpaticamente, ofereceram-nos um chá muito doce, que serve simultaneamente para matar a sede e como bebida energética. Pudemos ainda apreciar um jogo tipo damas, cujo tabuleiro é a areia e as peças são conchas apanhadas no deserto. Seguimos então a caminho da fronteira com Marrocos, por uma estrada paralela ao mar, onde o Tito teve o primeiro furo da viagem. Porque estávamos muito cansados, resolvemos pernoitar num motel junto à estrada.
No dia seguinte, retomando o caminho, verificámos existir um número invulgar de embarcações encalhadas nesta costa, conhecida pela “Costa do Mosquito”.
Nesta zona, a vegetação escasseia e as línguas de areia invadem as estradas, de rectas sem fim. Sentimos grandes diferenças em relação às viagens anteriores realizadas neste mesmo lugar. Já não há comboio militar, nem controlos policiais constantes, e pudemos rolar sozinhos, sem constrangimentos. O único perigo era sair da estrada de asfalto devido às minas terrestres que se calcula, sejam cerca de um milhão espalhadas pelo território.
As minas são armas cegas que não distinguem entre um pé de um soldado e de uma criança, à procura de lenha. Não reconhecem nem aceitam um cessar-fogo e muito depois de acabar a luta, bem depois do fim das guerras, podem ainda estropiar e matar os filhos e os netos dos soldados que as colocaram.
Passámos então pelo conhecido Cabo Bojador, a caminho de Laayoune (El Aaiún), junto à fronteira com Marrocos. Constatámos a forte incrementação de construção civil, para dar casas aos habitantes da região e com isso cativá-los a aceitar a anexação do território por Marrocos.
Durante este trajecto, sem que nenhum de nós se apercebesse, a mala do lado esquerdo da mota do Tito que vinha já amarrada com esticadores porque tinha partido os engates, deslocou-se, encostou-se ao escape e ardeu. Só quando parámos para abastecer é que reparámos que a mala tinha desaparecido, tendo com ela ficado uma boa parte das recordações recolhidas durante esta viagem.
Chegados a Laayoune, a capital, pernoitámos para seguir caminho para Marrocos.

—–Sahara Ocidental, antiga colónia espanhola, cujo povo luta pela sua independência há mais de 30 anos, tem quase metade da população refugiada na Argélia, em campos provisórios no deserto.
Este país de jure, que não existe ainda de facto, dividido por um muro de 1800 quilómetros, continua a aguardar que a comunidade internacional obrigue o invasor de parte do seu território, a aceitar uma data para a realização de um plebiscito.

Reino de Marrocos

Capital: Rabat
Moeda: Dirham Marroquino
Língua Oficial: Árabe

Terça-feira, 14 de Outubro.

Entrámos em Marrocos e passamos rapidamente por Tan-Tan, Tiznit e Agadir, famosa pela sua calma baía com 6 km de areia fina e 300 dias de sol por ano, com o objectivo de chegar a Marraquexe.
Esta cidade, que outrora foi capital de Marrocos, resiste ao tempo, a tudo o mais e mantém uma atmosfera mágica, enfeitiçadora e inesquecível.
Logo após nos termos instalado no hotel habitual rumámos à praça de Djema El Fna que quer dizer – Assembleia dos mortos – ou também – Praça do enterro – pois era aqui que se realizavam no passado as execuções públicas e onde, desde há quase mil anos os homens que vinham do deserto se concentravam com as suas caravanas de camelos.
Hoje, como no passado este local é o coração da cidade, é o fórum onde tudo começa, acaba, converge, onde tudo pode acontecer e onde todos os dias se realiza uma festa popular que ninguém organizou.
Aqui se vêm encantadores de serpentes, feiticeiros, árabes contadores de histórias, acrobatas, engolidores de fogo, falcoeiros, aguadeiros, amestradores e dançarinos.
Aqui se ouvem os sons dos oboés, dos tantans e das tradicionais flautas de gaïda.
Aqui se sentem os cheiros, dos fritos das brochettes (espetadas de carne de carneiro) e doce-salgado das tagines (com ameixas, amêndoas, passas e grãos de sésamo)
Por tudo isto, este espaço é muitas vezes considerado como o maior teatro do mundo ao ar livre.
Embora Marraquexe queira dizer parte depressa, o nosso sentimento era ficar… mas tínhamos de continuar viagem.
Passámos por El-Jadida, outrora cidadela portuguesa de Mazagão onde continuam vivos vestígios do tempo da ambiciosa e desastrosa epopeia lusitana no norte de África. Seguimos pela romântica e cosmopolita Casablanca, que detém hoje a primazia económica de Marrocos e que foi eternizada por um famoso filme, com o mesmo nome, protagonizado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman apesar de nenhuma cena ter sido lá filmada.
Finalmente chegamos a Tanger, a cidade que domina o mar e a terra à volta, que é uma vigia e um posto avançado, afinal a porta de entrada ou saída para um outro mundo. Alguns árabes dizem -de Tanger só se gosta uma vez –. Para nós nada tem de especial excepto ser o local onde apanhamos o Ferry-Boat para Espanha.

—–Marrocos, porque fortemente dependente do turismo, principalmente ocidental, que procura os famosos três «s» (sea, sex and sun), tem vindo a perder os usos e costumes da sua sociedade profundamente muçulmana.
Este país, o mais ocidental dos países do Magreb, o mais antigo reino do mundo árabe, com um prestígio mundial desproporcionado face à sua riqueza, enfrenta, externamente as criticas internacionais devido à ocupação do Sahara Ocidental e internamente a ameaça crescente dos militantes islâmicos que vêm crescer o apoio popular, pelo medo de que se esteja a perder a sua identidade.

África é um continente bastante heterogéneo. Como é sabido, o pólo aglutinador das vontades, das capacidades, dos desejos e das obediências, são as tribos ou povos.
Partimos de um país onde cerca de 90% da população é católica, com uma cultura profundamente ocidentalizada, por muitos anos de colonialismo e dirigíamo-nos a países com 90% de muçulmanos e cultura radicalmente diferente.
Em Angola, no Congo e até nos Camarões, a quantidade de igrejas católicas era visível, e prevalecia face às mesquitas. Na Nigéria, Benin e Burkina Fasso, Mali, Mauritânia e Marrocos as mesquitas estão em maioria. Também a construção e arquitectura das casas se torna diferente. De Angola aos Camarões são feitas à base de palha, folhagens e madeira. Da Nigéria ao Mali os materiais usados são a argila e o adobe (mistura de argila crua e palha). Finalmente, na Mauritânia e Sahara Ocidental, as tendas proliferam.

Viajámos pela África Negra na época das chuvas, tendo a sorte de ela só cair durante a noite. Durante o dia tínhamos poças e lama com fartura, ficando enlameados quase todos os dias. No entanto foi preciso chegarmos a Espanha para sermos apanhados por uma tempestade com chuvas torrenciais, que nos fez perder o caminho que queríamos tomar para entrar em Portugal.
Acabámos por chegar já ao fim do dia a Vila Verde de Ficalho, onde pernoitámos numa casa particular que alugava quartos. Depois de um banho quente reparador e de um jantar à portuguesa, para recuperar os 8 quilos perdidos pelo Tito e os 13 pelo João Pedro, fomos descansar.
Após uma noite bem dormida viajamos até à Mealhada, para comer leitão, continuando assim a recuperar o peso perdido e no dia seguinte, 18 de Outubro, com os nossos amigos do Motoclube do Porto, partirmos para a cidade Invicta onde, na Câmara Municipal nos aguardavam o seu Vice-Presidente Dr. Paulo Morais e também os nossos familiares, os nossos amigos e um grande número de pessoas que nos vinham abraçar com amizade e carinho.

África onde, de um remoto lugar, saiu o nosso antepassado comum, para iniciar uma viajem sem fim, povoando este ainda “Planeta Azul”, apresenta-se para muitos motociclistas como o destino eleito para a perfeita aventura. A combinação de deserto, selva, instabilidade política e infra-estruturas em colapso, bem como a diversidade, vitalidade e generosidade dos seus povos, faz com que uma visita a este continente seja por todos os motivos, inesquecível.

Esta vitalidade e generosidade, quando confrontadas, ao longo dos dias, com a imensa pobreza da maioria da sua população, obriga qualquer um a reflectir, sobre o valor da sua própria riqueza.

Para conseguir atravessar as estradas lamacentas, esventradas ou minadas, os territórios com guerrilha activa, as pistas dos desertos e passar incólume perante as ameaças veladas ou directas de polícias e militares corruptos, o viajante é obrigado a escolher a sua rota dia a dia, face aos perigos que depressa emergem mas que tardam a desaparecer, experimentando constantemente um sentimento ora de euforia ora de desespero.

AVENTURA É A PALAVRA LIBERDADE NO MOMENTO DE NOS SUBMETERMOS A NOVOS DESAFIOS; É A APRENDIZAGEM VIVIDA COM INTENSIDADE; É O TEMPERO DA VIDA

 

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